Washington proibiu na quarta-feira a entrada no país ao chefe do Exército birmanês e três outros responsáveis militares, considerando-os responsáveis pelas “violações dos direitos humanos em massa” na sequência da "limpeza étnica" dos rohingya no estado de Rakhine, no oeste do Myanmar.

A relatora da ONU para os Direitos Humanos no Myanmar, Yanghee Lee, considera que a medida imposta pelos EUA é inadequada e que os bens e propriedades dos homens em questão devem ser congelados.

Defende ainda a extensão das sanções a outros dois generais identificados anteriormente por uma equipa de investigação da ONU.

Lee iniciou no dia 08 de julho uma visita à Tailândia e Malásia, sem conseguir visitar o Myanmar porque o Governo birmanês proibiu a sua entrada no país, e afirmou que a violação dos direitos humanos na antiga Birmânia tem um impacto “evidente” nos países do Sul e Sudeste do continente asiático, para onde vão os cerca de 1.5 milhão de refugiados birmaneses.

A representante da ONU pede aos países da zona para que reconheçam a “gravidade” da crise, que inclui que “o tráfico de pessoas do Myanmar” e o “fluxo de narcóticos dentro e fora da região”.

A relatora concluiu hoje a sua viagem oficial com uma conferência de imprensa em Kuala Lampur e recordou o aumento da tensão entre o Exército birmanês e a guerrilha do Exército Arakán, no estado de Rakhine, onde foi imposto um bloqueio da Internet pelas autoridades.

“O Governo impôs um bloqueio de Internet para causar mais danos à população?”, questionou Lee ao mesmo tempo que sublinhou a dificuldade de acesso a fontes no terreno.

Muitas pessoas que estavam a ser investigadas devido às suas relações com a guerrilha morreram em circunstâncias suspeitas enquanto estavam detidas.

A tática de represálias contra a população civil é uma das acusações mais comuns contra os militares birmanenses, que tem um vasto historial de abusos contra as minorias étnicas e que mantêm uma grande influência no Governo, através dos Ministérios do Interior, Fronteira e Defesa.

Lee denunciou “interferências” durante a sua visita à Tailândia, por ter sido obrigada a mudar a sua agenda programada, mas não adiantou mais detalhes sobre o sucedido.

“Preocupa-me muito porque parece que o Myanmar aumentou a sua pressão e durante os seus esforços para evitar o escrutínio, chega a abordar as nações vizinhas”, disse a enviada especial da ONU ao relembrar o exemplo da extradição, a partir de Singapura, de seis birmanenses que alegadamente tinham ligações com o Exército Arakán.

O estado de Rakhine atraiu atenção de todo o mundo devido à operação militar iniciada em 2017 contra a população Rohingya, que obrigou mais de 730.000 membros da minoria muçulmana a fugirem para o Bangladesh, situação que Lee qualificou como “limpeza étnica com marcas de genocídio”.

A campanha de repressão do Exército de Myanmar contra esta minoria muçulmana, que foi descrita pelas Nações Unidas como limpeza étnica e um possível genocídio, incluiu o assassínio de milhares de pessoas, a violação de mulheres e de crianças e a destruição de várias aldeias.

Myanmar, de maioria budista, não reconhece esta minoria e impõe múltiplas restrições aos rohingyas, nomeadamente a liberdade de movimentos.

Desde que a nacionalidade birmanesa lhes foi retirada em 1982, os rohingyas têm sido submetidos a muitas restrições: não podem viajar ou casar sem autorização, não têm acesso ao mercado de trabalho, nem aos serviços públicos (escolas e hospitais).

No dia 26 de junho a procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional, Fatou Bensoud, anunciou que quer investigar o êxodo da minoria muçulmana rohingya para o Bangladesh.

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