O líder da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) foi reeleito à primeira volta para um segundo mandato, com 73% dos votos, anunciou ontem a Comissão Nacional de Eleições, na divulgação dos resultados oficiais da votação de 15 de outubro, e o seu partido teve uma maioria superior a dois terços do parlamento.

Nyusi chegou à Presidência da República com as credenciais de engenheiro - que levou, como presidente do clube, o modesto Ferroviário de Nampula a campeão nacional de futebol moçambicano -, e com uma passagem fugaz pelo cargo de ministro da Defesa, sob a presidência de Armando Guebuza.

O seu Governo teve de lidar com uma rebelião militar movida pela Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), devido a diferendos sobre os resultados eleitorais de 2014, e com o corte de ajuda financeira ao Orçamento do Estado (OE), na sequência do caso das dívidas ocultas do Estado.

"Farei de tudo para que o país tenha paz", disse, amiúde, expondo-se a situações vistas como "contranatura" no seu partido, como quando foi procurar o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, nas matas da Gorongosa para conversar sobre a paz, em 2017.

Para evitar que a aproximação fosse torpedeada por membros radicais da Frelimo, a deslocação à Gorongosa foi ultrassecreta e só foi comunicada a alguns jornalistas no dia em que aconteceu.

No plano internacional, entendeu rapidamente que tinha de começar a ouvir o Fundo Monetário Internacional (FMI), para que o país saísse da situação de quase "pária" a que foi votado nos mercados internacionais pelo incumprimento perante credores das dívidas não declaradas.

Sempre destacou o facto de o seu Governo conseguir pagar salários mensalmente perante uma situação difícil de "sanções e de crise" impostas pelos doadores e pela conjuntura.

Lembrando um estilo muito peculiar do primeiro Presidente moçambicano, Samora Machel, Filipe Nyusi não se coíbe de dirigir reprimendas públicas a figuras do Estado moçambicano.

A última aconteceu em agosto, quando acusou em público o então presidente do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), Rosário Fernandes, cuja instituição considerou inflacionados os dados do registo eleitoral da província de Gaza, sul de Moçambique - a que historicamente mais apoia a Frelimo.

Indiferente à contestação de organizações da sociedade civil e analistas, Filipe Nyusi acusou o INE e Rosário Fernandes de quererem "brilhar sozinhos", ao apresentarem, publicamente, dados e projeções da população de Gaza que refutam o apuramento dos órgãos eleitorais.

O caráter intempestivo de Nyusi já se tinha revelado em autênticas provas orais a que submete publicamente dirigentes distritais sobre dados de governação local nas visitas presidenciais que realiza pelo país.

Amante e conhecedor da Matemática por força da sua formação de engenheiro e professor na Universidade Pedagógica, as perguntas sobre estatísticas e números que Filipe Nyusi levanta costumam causar autêntico pavor aos funcionários do Estado.

O "bailarino", como é também tratado em círculos mais próximos, por ser um amante da dança, é ainda conhecido pelo relativo desapego ao protocolo do Estado.

No início do mandato, sentou-se várias vezes no chão com crianças em salas de aulas sem carteira para se solidarizar com os alunos que estudam sem grandes condições, dando depois algumas lições de Matemática.

Participou nalgumas partidas de futebol de caráter recreativo pela equipa do Governo e fez alguns minutos em jogos inaugurais de campeonatos escolares.

Descrito como um homem de família, brincalhão e de sorriso fácil, Filipe Nyusi, 55 anos, nasceu em Namua, distrito de Mueda, província de Cabo Delgado, é casado e pai de quatro filhos.

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