“Existe uma oportunidade para Moçambique demonstrar que consegue julgar antigos dirigentes superiores”, afirmou à agência Lusa Alex Vines, diretor do programa Africa do Instituto Real de Relações Internacionais - Chatham House.

Vines lembrou que estão agendadas eleições gerais para outubro e que “o eleitorado está bastante zangado” com o partido do Governo, Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), devido ao escândalo das dívidas ocultas.

“Apenas um julgamento genuíno pode ajudar a recuperar o apoio da Frelimo. As eleições autárquicas do ano passado foram um aviso notório”, argumentou Vines.

O especialista britânico diverge assim da opinião de Borges Nhamire, analista do Centro de Integridade Pública (CIP), ONG moçambicana que tem acompanhado o caso na África do Sul, que disse à Lusa estar “claramente contra a extradição de Chang para Moçambique", onde "nada lhe acontecia, até que os americanos emitiram o mandado de prisão".

"Acreditamos que é importante que seja julgado nos EUA para que mais informação venha a público. A justiça moçambicana ou não tem capacidade ou não tem interesse em esclarecer o caso", alegou.

Na segunda-feira, o ministro da Justiça e Serviços Correcionais da África do Sul, Michael Masutha, disse ter de decidido que Manuel Chang “será extraditado para enfrentar julgamento pelos seus alegados crimes em Moçambique”, citado num comunicado divulgado pelo Ministério da Justiça e Desenvolvimento Constitucional.

De acordo com a mesma nota, o governante sul-africano teve em conta que “o acusado é cidadão da República de Moçambique”, que “o alegado crime foi cometido enquanto ele era ministro de Estado” moçambicano e que a “dívida onerosa para Moçambique resultou da alegada fraude”.

O ex-ministro das Finanças moçambicano Manuel Chang, três ex-banqueiros do Credit Suisse e um mediador da Privinvest foram detidos em dezembro a pedido da justiça norte-americana.

A investigação alega que a operação de financiamento de 2,2 mil milhões de dólares (dois mil milhões de euros) para criar as empresas públicas moçambicanas Ematum, Proindicus e MAM durante o mandato do Presidente Armando Guebuza é um vasto caso de corrupção e branqueamento de capitais.

Em fevereiro, só depois da ação dos EUA, foram detidas várias figuras públicas pela justiça moçambicana - entre as quais pessoas próximas do ex-chefe de Estado Guebuza - que tinha o caso aberto desde 2015, mas sem nenhuma detenção.

O ministro dos Negócios Estrangeiro e Cooperação de Moçambique, José Pacheco, disse hoje que o Governo respeita qualquer decisão da África do Sul sobre a extradição do ex-ministro das Finanças Manuel Chang.

É uma decisão "livre e soberana dos órgãos competentes", referiu Pacheco, citado pelo jornal O País.

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