Num artigo hoje divulgado pelo Instituto de Estudos de Segurança (ISS), Liesl Louw-Vaudran sublinha que esta não é a primeira decisão dos sul-africanos a irritar os Estados Unidos nos últimos meses, mas “não surpreende que a solidariedade regional entre os africanos do sul tenha triunfado”.

Com esta decisão, “alguns acreditam que Chang se vai escapar sem sofrer consequências e os factos não serão revelados, como aconteceria se fosse julgado nos Estados Unidos”, que manifestaram o seu “grande desapontamento” através de um comunicado da sua embaixada em Pretória.

O processo de extradição de Manuel Chang foi enviado para o ministro da Justiça e Serviços Correcionais da África do Sul, Michael Masutha, cerca de duas semanas antes das eleições legislativas de 08 de maio, em que o Congresso Nacional Africano (ANC), partido no poder, obteve a maioria de 57,5%, a mais baixa de sempre desde 2014.

O ex-ministro das Finanças de Moçambique, detido na África do Sul desde dezembro, a pedido dos Estado Unidos no âmbito da sua investigação às dívidas ocultas de mais de 2 mil milhões de dólares, continua a gozar de imunidade parlamentar e não será julgado em Moçambique, segundo o pedido submetido por Moçambique à justiça sul-africana.

Liesl Louw-Vaudran sublinha que Moçambique tem vários problemas entre mãos, entre os quais as consequências de dois ciclones devastadores e os ataques terroristas no norte do país, aos quais se junta o facto de os responsáveis políticos por quase levarem o país à falência poderem escapar impunes.

“Permanece a incerteza quanto à imunidade de Chang por se tratar de um deputado”, indica a especialista.

Vinte pessoas foram detidas até ao momento, entre os quais o filho do antigo presidente Armando Guebuza, mas admite-se que existam mais de 100 envolvidos.

“Quem vai assumir as culpas pelas dívidas” é a questão que preocupa muitos moçambicanos desde que o escândalo foi revelado em 2016, destaca a investigadora do ISS.

Desde essa altura a moeda afundou, foram retirados subsídios a produtos básicos e doadores internacionais suspenderam ajudas ao país, levando várias organizações da sociedade civil a mobilizarem campanhas a favor do não pagamento das dívidas.

“Quem está no poder não quer deixar passar esta mensagem”, escreve Liesl Louw-Vaudran, contando que, no início do ano, a polícia cercou manifestantes que envergavam t-shirts com os dizeres “Não Pago” e os forçou a retirar a peça de roupa.

Outros ativistas relataram pressões para abandonar a campanha, sobretudo no período pré-eleitoral, reforça. Moçambique tem eleições gerais marcadas para o próximo dia 15 de outubro.

Mas “a expetativa é que, apesar de tudo, Moçambique venha a pagar as dívidas nos próximos anos”, diz a consultora do ISS.

“Em consequência, a descoberta de enormes reservas de gás natural e petróleo na província de Cabo Delgado – a mesma que tem sido visada por ataques de extremistas – pode vir a significar muito pouco para os moçambicanos comuns. Existe já alguma especulação de que as receitas esperadas do gás estão a ser dadas como garantia do pagamento das dívidas, que deverão ser restruturadas”.

O escândalo das dívidas ocultas, no valor de 2,2 mil milhões de dólares (1,97 mil milhões de euros) envolve empréstimos de banqueiros corruptos do Reino Unido e da Rússia a companhias estatais ligadas a membros do governo, incluindo Chang. Os responsáveis terão alegadamente embolsado 200 milhões de dólares em três negócios diferentes, envolvendo a compra de navios para a pesca de atum e patrulhamento.

Nos Estados Unidos estão a ser julgados vários banqueiros e intermediários relacionados com os negócios.

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