Tal como as 480 famílias que vivem no centro de reassentamento de Mandruzi, a 30 quilómetros do centro da cidade da Beira, Cristina Luís, 45 anos, perdeu tudo na madrugada do dia 14 de março e hoje vive "com o que pode", à mercê da ajuda de outros, que às vezes não chega.

"A dificuldade aqui é reconstruir as nossas casas e ter o que comer", confessa à Lusa Cristina Luís, uma agricultora que vive na zona de reassentamento de Mandruzi.

Acossada pela pobreza, Cristina Luís, tal como as famílias que se refugiaram em Mandruzi, quer poder produzir o seu próprio alimento, mas "isso ainda é um sonho".

Se não fossem os três canteiros criados à porta da sua tenda, os quatro filhos de Cristina Luís nada teriam para comer. Mas mesmo esta alternativa hoje está também a ser ameaçada, porque não há sementes para cultivar nas novas zonas.

"Queremos sementes para não dependermos da ajuda", diz a agricultora, enquanto rega a sua pequena horta.

O representante interino da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) notou essa dificuldade e anunciou que há um pacote de 75 mil 'kits' compostos por sementes e ferramentas agrícolas para as populações que deverá chegar a Mandruzi no final deste mês.

"Estamos a abrir um escritório na Beira e vamos distribuir 75 mil 'kits' para agricultura, sendo que este centro de reassentamento será um dos abrangidos", afirmou Przemyslaw Walotek, em declarações à Lusa.

No total, são 1.952 indivíduos que vivem na zona de reassentamento de Mandruzi, pessoas que sobrevivem maioritariamente do apoio do Instituto de Gestão de Calamidades de Moçambique (INGC) e das Nações Unidas.

Mas a ajuda nem sempre "chega para todos", queixa-se à Lusa Paulo Lourenço, 39 anos, um canalizador que está desempregado desde o ciclone Idai.

"Muitas vezes a ajuda só chega quando recebemos visitas. No mês passado, estava cá o Presidente [Filipe Nyusi] e tivemos ajuda. Passou um mês e não tivemos nada. Agora ficamos a saber que vinham uma delegação das Nações Unidas e deram-nos ajuda", lamenta.

Além do Governo moçambicano, o Programa Mundial para Alimentação (PMA) tem estado a apoiar as populações e o destaque tem sido sempre o alerta de que há ainda pessoas que precisam de apoio humanitário.

"Ainda há necessidade humanitária, infelizmente. As pessoas perderam tudo. Ao mesmo tempo que há necessidade de apoio humanitário, há necessidade de reconstruir. Então, temos de fazer as duas coisas", disse à Lusa a representante do PMA em Moçambique, Karin Manente.

Apesar das dificuldades resultantes de um desastre natural que levará tempo para desaparecer da memória das pessoas no centro de Moçambique, o sonho de reconstruir é comum para Cristina Luís e Paulo Lourenço, que mesmo mergulhados na miséria nunca perderam a esperança.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, visitou a Beira, no final da semana passada, tendo-se deslocado a esta zona de reassentamento.

Na sequência da passagem dos ciclones Idai e Kenneth no centro e norte de Moçambique e das cheias que os acompanharam, o país conseguiu promessas de 1,2 mil milhões de dólares da comunidade internacional, dos 3,2 mil milhões de dólares necessários para a reconstrução, faltando suprir um défice de dois mil milhões de dólares.

O ciclone Idai atingiu o centro de Moçambique em março, provocando 604 vítimas mortais e afetando cerca de 1,8 milhões de pessoas.

Pouco tempo depois, Moçambique voltou a ser atingido por um ciclone, o Kenneth, que se abateu sobre o norte do país em abril, matando 45 pessoas e afetando outras 250.000.

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