"Nos últimos meses a insurgência sangrenta na província de Cabo Delgado teve uma viragem marítima sem precedentes que, se piorar, pode ter profundos impactos socioeconómicos e implicações de segurança para a África Austral", defendeu o analista num artigo académico sobre os ataques na região.

No texto, Timothy Walker afirma que o grupo inspirado pelo Estado Islâmico Al-Sunnah tem atacado Cabo Delgado desde 2017, tendo morto mais de mil pessoas e "lançou ataques frequentes nas vilas costeiras e usou ataques coordenados por mar e terra quando recapturou a cidade de Mocímboa da Praia, o que mostra que os insurgentes perceberam que atacar por via marítima era uma opção viável e que o risco de serem intercetados pela segurança marítima moçambicana é baixo".

O grupo está a evoluir de um padrão de "ataques destrutivos" para a "ocupação temporária de cidades, numa escalada destinada a obter um controlo mais permanente sobre o território e as comunidades", argumentou o analista, vincando que isto "aponta para uma escalada iminente no combate".

A utilização crescente das vias marítimas pode escalar também não só do ponto de vista da violência na província, mas também na própria região.

"Nestas condições, há quem alerte que o norte de Moçambique pode tornar-se uma plataforma para o lançamento de assaltos e servir de base a redes criminosas na região, incluindo a pirataria, o que coloca um risco significativo, já que a atividade marítima é essencial para ajudar as pessoas deslocadas do país e o Governo está cada vez mais dependente das receitas das exportações de gás oriundas das enormes reservas ao largo da costa", aponta o analista.

Defendendo o envolvimento da Comunidade dos Países da África Austral (SADC), o analista argumenta ainda que "apesar de a segurança marítima em si própria não garantir vitória em terra contra a Al-Sunnah, pode fornecer uma âncora para garantir que as iniciativas de segurança ficam firmemente nas mãos do Governo de Moçambique e na SADC".

Mocímboa da Praia é uma das principais vilas da província, situada 70 quilómetros a sul da área de construção do projeto de exploração de gás natural conduzido por várias petrolíferas internacionais e liderado pela Total.

A violência armada dos últimos dois anos e meio já terá provocado a morte de, pelo menos, 700 pessoas e uma crise humanitária que afeta cerca de 211.000 residentes.

As Nações Unidas lançaram, no início de junho, um apelo de 35 milhões de dólares à comunidade internacional para um Plano de Resposta Rápida para Cabo Delgado para ser aplicado de maio a dezembro.

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