"Se o ataque de facto aconteceu, terá sido feito quase de certeza por membros que já estão na província e operam ali desde outubro de 2017, ou seja, a reivindicação do EI de realmente operar como uma organização em Cabo Delgado é bastante enganadora", referiu Tristan Gueret, analista na consultora Risk Advisory, em Londres.

Parece credível que tenha havido um confronto entre insurgentes e forças de segurança moçambicanas, mas "não há indicação de que haja alguma relação formal" entre os agressores e o EI.

"Tudo o que é necessário" para fazer uma reivindicação - que terá sido acompanhada por imagens, não autenticadas, de material bélico que o grupo conseguiu recolher - é que os agressores "tenham enviado imagens através de telemóvel por 'Whatsapp' ou 'Telegram' para alguém com quem tenham contactado".

"Não há indicação de que haja ligações ou laços formais que vão além disto. Por agora", acrescentou.

"O EI está a querer mostrar-se como uma organização terrorista global nos últimos meses, depois de perdas territoriais na Síria e Iraque, e faz isso ao anunciar as suas ditas novas províncias, como a província de África Central, com a República Democrática do Congo (RDC) e onde inclui este ataque a Moçambique - além de uma nova província a cobrir a Índia e o Paquistão", referiu.

A reivindicação relativa a Cabo Delgado, em particular, nota Gueret, encaixa "na estratégia de aproveitar grupos que estão no terreno a organizar os seus ataques" para promover a image,m ao mesmo tempo que esses grupos também ganham notoriedade ao estarem associados ao EI.

O analista considera que "ainda é cedo" para avaliar o impacto deste anúncio, porque os grupos que têm protagonizado os ataques em Cabo Delgado revelam pouca coesão.

"Parece haver diferentes motivações, diferentes tipos de ataques e espalhados por diferentes zonas. Não parecem um grupo unificado com uma liderança, se é que podemos falar de haver alguma organização, pelo que é pouco claro se haverá alguma influência do EI", sublinha.

Outros grupos noutros pontos do globo que passaram a estar associados a reivindicações do EI não conheceram nenhum tipo de expansão ou reforço depois disso, ou seja, não parece que haja capacidade de apoios logístico ou financeiro por parte da organização terrorista.

O EI anunciou esta terça-feira ter provocado mortos e feridos entre militares moçambicanos na segunda-feira, num confronto com o Exército na região de Cabo Delgado.

O comunicado, no qual não é especificado o número de vítimas, representa a primeira vez que o grupo terrorista reivindica um ataque no norte de Moçambique, região afetada desde outubro de 2017 por ataques armados levados a cabo por grupos criados em mesquitas da região e que eclodiram em Mocímboa da Praia.

A província de Cabo Delgado, onde avançam os megaprojetos de exploração de gás natural do país, tem sido palco de ataques de grupos armados que já terão matado, pelo menos, 200 pessoas.

A reivindicação em Moçambique acontece cerca de mês e meio depois de o EI ter anunciado o seu primeiro ataque noutro país do sul de África, a República Democrática do Congo (RDC).

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