“Este não era o acordo que muitas pessoas esperavam”, mas era “o acordo que Moçambique esperava” porque permite a Maputo continuar a ter o exclusivo das operações, com recurso a empresas contratadas e a ações no terreno.

No seu livro, “O Cabo do Medo”, que será lançado a 02 de junho, Nuno Rogeiro recorda os últimos episódios do conflito, com ações de defesa da capital provincial e ataques aos grupos que integram aquilo que considera ser o Estado Islâmico Província da África Central (EIPAC).

"[A partir de abril,] Os fuzileiros navais, vindos da base de Pemba e da escola‑mãe de Katembe (Maputo) começaram a ser usados com mais eficácia e frequência. Eram a tropa ideal para Cabo Delgado. Agentes de informações de vários países tentaram, sem êxito, atribuir o reforço militar a Angola, ao Zimbabué ou à Tanzânia, mas as botas no terreno eram moçambicanas”, escreve o autor, salientando, em entrevista à Lusa que Maputo não quer abdicar do controlo militar das operações.

No dia 19 de maio, a 'troika' do órgão de Política, Defesa e Segurança da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa) manifestou o apoio a Moçambique no combate a grupos armados que atacam na zona desde outubro de 2017, tendo causado mais de 500 mortos, e cujas ações são reivindicadas pelo Estado Islâmico desde junho do ano passado.

No entanto, a organização não se comprometeu em enviar tropas para o terreno. Segundo fontes contactadas pelo jornalista, os dirigentes da SADC “ficaram impressionados porque não sabiam a penetração do Daesh em Cabo Delgado” e a organização “apercebeu-se de que isto era uma ameaça verdadeiramente grave” para a região.

No entanto, “os países da SADC neste momento têm falta de dinheiro, estão confinados e têm falta de equipamento” para apoiarem ações no terreno.

As forças armadas da organização “carecem de grande operacionalidade” e de recursos. “Há material que existe em papel, mas não há peças”, exemplificou.

Só Luanda tem meios e recursos para uma ação do terreno até porque se fala português, mas “há alguns países que não gostariam de ver Angola a ter um papel preponderante numa força internacional em Moçambique”.

Em paralelo, “Moçambique já começou os contactos com a ONU no sentido de se criar um mecanismo de troca de informações que possa levar a um patamar diferente” o combate no terreno, disse o analista.

No entanto, este é “um processo que anda muito lentamente".

"Estamos todos dependentes de processos políticos que são lentos e de processos militares e de segurança que se calhar podem ser devastadores”, avisou.

“Neste momento há uma espécie uma calma e uma paz podre em Cabo Delgado, mas as coisas podem mudar em 48 horas”, considerou, acrescentando: “Noto hoje uma maior determinação do poder político e uma maior organização do poder policial” no combate aos insurgentes.

“A grande guerra do Daesh começa por tentar destruir a estrutura islâmica tradicional de Cabo Delgado”, explicou Rogeiro.

No seu livro, o jornalista recorda os confrontos de abril e maio deste ano como um momento de possível viragem, nomeadamente após o falhanço do ataque a Pemba.

“Ao contrário de alguns relatórios que previam a perda de Cabo Delgado para o jihadismo, a situação parecia mais controlada em maio”, com o “‘exército profissional’ do Daesh derrotado” pelos militares moçambicanos.

No entanto, escreve o jornalista, ainda existem muitas incógnitas: “Na verdade, cerca de 40 comandantes estrangeiros do EIPAC continuavam em Cabo Delgado, os bandos fugiram para as matas, e sem uma campanha concertada civil‑militar, a província arriscava‑se a ser uma terra de posições entrincheiradas, cercadas por grupos hostis”.

No livro, o autor retrata a transformação do grupo Al Shabab num braço do Estado Islâmico e as suas ramificações regionais, nomeadamente em Moçambique, com garimpeiros ilegais na zona de Montepuez e pregadores em Quiterajo, Palma ou Mocímboa da Praia, onde formaram comunidades autónomas da hierarquia tradicional, criando o embrião do grupo terrorista que hoje existe.

A obra retrata os canais de financiamento alimentados pela estrutura do Estado Islâmico e salienta a importância do tráfico de droga como um potenciar recursos a utilizar pelos movimentos, até devido à proximidade com o arquipélago das Quirimbas.

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