Cinco zonas de acomodação concentram pessoas que fugiram desde final de abril de aldeias do distrito de Quissanga e do norte do distrito de Metuge, a escassos 50 quilómetros.

A vila de Metuge tem vista para Pemba, capital provincial, que fica do outro lado da baía banhada pelo oceano Índico.

Quando os grupos armados que atormentam Cabo Delgado, classificados como terroristas, vieram do norte e invadiram aldeias do distrito de Quissanga, no final de março, começou a debandada, que de uma forma natural seguiu a pé, para sul.

E Metuge era a próxima paragem, suficientemente perto da capital provincial para dar segurança, mas ainda no campo, a paisagem natural de deslocados que são na maioria camponeses.

Na zona de acomodação entre as escolas de Manono, em Metuge, há tendas que serviram para abrigar desalojados do ciclone Kenneth, que atingiu Cabo Delgado em 2019.

Também há tendas de tecido tradicional, mas não chegam, mesmo sendo divididas: cada tenda alberga duas famílias.

Os deslocados queixam-se da falta de espaço e de comida.

Os campos que cultivavam ficaram para trás, abandonados por causa da violência armada, e a ajuda que recebem nas zonas de acomodação para pouco mais dá do que uma papa de milho pela manhã e uma porção de arroz pela tarde – cada qual dividida pelo agregado familiar.

Dividida quando dá, porque um casal tem cinco ou mais crianças – que juntamente com os jovens compõem a maioria dos deslocados, espelho da pirâmide etária do país.

“Acho que está a haver mais escassez de comida. Isso é preocupante”, refere à Lusa Mustafá Ali Azito, oficial de abrigos da Ayuda en Acción, ONG espanhola, organização que está a gerir as zonas de acomodação de deslocados em Metuge, em coordenação com o Governo moçambicano e demais agências humanitárias.

Na opinião daquele responsável, a escassez justifica um alerta para o resto do mundo.

“Seria melhor [haver esse alerta]. Não sabemos quando a coisa vai acabar”, numa alusão ao conflito armado, “e os deslocados não estão só aqui”, passando até para outras províncias, nota.

“A comida não é suficiente porque somos muitos”, diz Faustino Raul, 37 anos, antigo carpinteiro de Quissanga, um dos deslocados que encontrou abrigo em Manono.

“Às vezes entregam 25 sacos para 381 pessoas”, só numa das áreas de acolhimento. “Como dividimos? Talvez com meio quilo um quilo (de arroz ou milho) por cada pessoa” e cada qual terá de gerir a quantidade.

Pouco depois das 13:00 (locais) junta-se uma pequena multidão, sinal de que se iniciou uma distribuição de arroz.

Mais de uma centena de pessoas junta-se no largo da maior árvore mangueira do recinto, enquanto um grupo de jovens encarregados começa a chamar um a um os nomes de uma longa lista.

Cada qual traz um utensílio (tacho ou recipiente plástico) em que recebe uma quantidade devidamente medida de arroz.

Puet Omar caminha entre tendas e queixa-se: no caso dele, “a comida que há é milho e é pouca. Para a barriga não chega”, refere enquanto alguns dos seus vizinhos ajeitam plásticos onde dormem, ao relento, ao lado de outra tenda.

Muita gente dorme sem teto em Manono e agradeceu a oferta de hoje: a Organização Internacional das Migrações (OIM), em conjunto com a Ayuda em Accion, entregaram esteiras e cobertores aos deslocados.

“Não, não quero trocar isto por comida”, diz Casimiro Abdala, 56 anos, deslocado de Quissanga, ao receber duas mantas e uma esteira.

“Isto vai me facilitar a vida para dormir”, justifica, agora que teve de se habituar a dormir no chão desde que fugiu da sua terra.

Alimentação, abrigo e utensílios domésticos estão entre as principais necessidades dos deslocados que transformaram Metuge numa vila preenchida com tendas que remendam vidas, a maioria delas de crianças e jovens.

Metuge é ao mesmo tempo a linha da frente daquilo que hoje se considera território seguro, pois seguir em frente, em direção a norte, é pôr pé na incerteza, face à insegurança que tem arrasado a província desde há dois anos e meio.

Pelo menos mil pessoas já morreram no conflito ao qual o grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico se associou desde há um ano, uma guerra, como lhe chamam os deslocados, que já afetou 250.000 pessoas, a maioria em fuga.

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