Nas eleições do passado dia 15 de outubro, Filipe Nyusi foi reeleito Presidente de Moçambique por mais cinco anos. Quais são os desafios que se seguem? Para o analista político moçambicano Gustavo Mave, que considera que desafios mais difíceis que os atuais, relacionados com o conflito armado com a RENAMO, foram ultrapassados no mandato anterior.

Em entrevista à DW África, Gustavo Mave nota ainda que, a seu ver, Mariano Nhongo, líder da autoproclamada Junta Militar da RENAMO, não "é um grande problema", colocando no topo da lista de preocupações do Presidente a integração dos homens armados do maior partido da oposição moçambicana nas Forças de Defesa e Segurança (FDS) e os ataques de insurgentes na província de Cabo Delgado, que continuam a ser recorrentes.

DW África: Como irá lidar o Presidente eleito Filipe Nyusi com a integração dos homens armados da RENAMO nas Forças de Defesa e Segurança?

Gustavo Mave (GV): Acho que será menos difícil do que alguns dos desafios que o Presidente Nyusi teve neste mandato. Os piores, se não foram resolvidos, pelo menos foram minimzados. Estou a falar, por exemplo, das escamaruças - para não dizer quase guerra - que existiam quando tomou posse, estavam no seu máximo. O então líder da RENAMO, agora falecido, estava vivo e desafiante. Na altura, ele afirmava que havia "dois Presidentes no país" e [Nyusi] tacitamente e de forma estratégica, conseguiu levá-lo à razão.

DW África: Na sua opinião, Mariano Nhongo constitui uma ameaça?

GV: Marianao Nhongo não me parece ser um grande problema, porque tem mostrado sinais de colaborar com o Governo. Tenho essas indicações, quase documentadas, de que ele não pretende fazer guerra. Ele pretende ser reintegrado como está previsto nos protocolos que o Presidente Nyusi negociou com o falecido presidente [da RENAMO] Afonso Dhlakama. Agora [Filipe] Nyusi tem outros desafios, como é exemplo esse em Cabo Delgado, mas penso que não é igual ao problema que era criado pela RENAMO.

DW África: No que concerne à corrupção, que desafios tem o Governo pela frente?

GV: Essa será certamente uma das coisas que ele vai levar a sério. A verdade é que os que desviaram fundos vão tentar resistir para se protegerem, mas [se a investigação continuar] coordenada, como me parece que está a ser, vão-se aperceber que não valerá a pena, porque só agravará os problemas.

DW África: E em relação ao gás que vai começar a ser vendido em Moçambique?

GV: O Presidente Nyusi tem dito que não se pode pensar que as soluções para o país virão todas da venda do gás, tanto é que a lei moçambicana dá direito às companhias que exploram os hidrocarbonetos e outros recursos minerais [no país] àquilo que eu chamaria "algum tempo de graça", não totalmente, mas, por exemplo, nos primeiros anos, eles darão a Moçambique os seus lucros de 36% para que possam recuperar os seus capitais. É assim que diz a lei.

DW África: Depois temos o fenómeno das alterações climáticas com cheias, secas e ciclones. Acha que o Governo vai conseguir negociar com as Nações Unidas para que haja mais financiamento que permita mitigar os efeitos das catástrofes naturais?

GV: Tenho indicações de que está a haver esse financiamento, não na medida do desejável, mas o ministro Celso Correia tem sido muito feliz nesse aspeto. Tem tido algumas doações decorrentes da política da compra do carbono. Ele tem conseguido alguns milhões de dólares e quero acreditar que, a continuar esta política, com ele ou com outra pessoa, o país poderá, de facto, receber alguma ajuda. Nunca será suficiente, mas penso que esse pouco que será, ou está a ser, libertado, se for bem gerido, vai atenuar o problema.

por: Romeu da Silva

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