Na sexta-feira (22.05), o maior partido da oposição rebateu no Parlamento a indicação, por parte da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), do jornalista Gustavo Mavie para compor a Comissão Central de Ética Pública.

A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) considera inadmissível que se indique uma pessoa que já foi penalizada pelo Tribunal Administrativo por gestão danosa da Agência de Informação de Moçambique (AIM), quando Gustavo Mavie era seu diretor.

O dedo acusador ao jornalista não é apontado apenas pela oposição. Também os inteletuais e jornalistas o fazem, pois Mavie é considerado, além de tudo, o "jornalista da FRELIMO". Falámos com o visado sobre a sua polémica nomeação.

DW África: A sua indicação para a Comissão Central de Ética Pública tem sido duramente contestada pela oposição, inteletuais e jornalistas. Consideram que o facto do seu nome estar associado a uma gestão pouco transparente na AIM retira-lhe legitimidade de integrar a Comissão. Como vê esse argumento?

Gustavo Mavie (GM): Eu nunca fiz uma gestão pouco transparente ou danosa na AIM, longe disso. O que fiz na AIM foi uma gestão muito rigorosa, que me criou inimigos entre aqueles que, antes de eu ser indicado para a AIM vinham fazendo desvios de fundos, que eu depois me pus a combater. É preciso dizer que tinham sido essas pessoas que tinham orquestrado a minha transferência da AIM para Londres, em 1997. Fiquei quatro anos lá. Só voltei como diretor porque os trabalhadores, sabendo como eu era, exigiram que só podia ser eu a substituir o diretor que, na altura, estava a deixar os corruptos fazerem das suas. Reabilitei a AIM, equipei-a e fechei todas as torneiras através das quais todos os fundos eram drenados. Isso criou-me inimigos. Cheguei a expulsar 12 pessoas. Muitos recorreram aos tribunais, mas não ganharam. Portanto, esses que dizem que estou envolvido em esquemas de corrupção estão apenas a reproduzir o que ouviram dizer das bocas desses que me combatiam. Isso nunca ficou provado, apesar de ter havido um total de sete investigações de instituições abalizadas para o efeito. Nunca conseguiram provar o tal envolvimento em atos de corrupção, dos 14 anos em que estive lá.

Portanto, não estive nada envolvido em atos de corrupção, e a prova disso é que, em Moçambique, já foram julgados e condenados ministros e até diretores de organismos tão poderosos, mas eu nunca me sentei em nenhum banco dos réus. Que proteção é essa a um simples diretor como eu, quando até ministros foram condenados por terem praticados atos de desvios de fundos?

DW África: Também há os que o contestam por ser, na opinião deles, um defensor acérrimo do Governo da FRELIMO, mesmo em casos de desmerecimento. É possível gerir a sua contestada liberdade de escolhas com a imparcialidade que se deseja no comité?

GM: Não é verdade. Eu já levantei questões muito sérias sobre o Governo e mesmo sobre o partido FRELIMO. Quando a FRELIMO fez 50 anos, em 2012, escrevi um artigo em que dizia que a FRELIMO está a ser bastante infiltrada pelos corruptos e que iria perder a sua popularidade, o prestígio de que sempre gozou no começo dos anos da nossa independência e durante a luta armada. Eu sou crítico a todos aqueles que cometem erros; sou muito mais crítico perante a RENAMO, que moveu uma guerra bastante cruel durante 16 anos. Eu não sou apoiante cego de ninguém, eu critiquei tanto a RENAMO como critico os EUA por promoverem guerras em todo o mundo. Sou contra o mal e não contra as pessoas ou contra a oposição, como dizem. E continuarei a ser contra tudo isto, não obstante haja quem entenda que estou errado. Quem está errado é quem apoia estas atrocidades.

DW África: Considera este movimento contra si mais como uma espécie de perseguição política por causa das suas posições?

GM: Afirmativo. Os que me perseguem e são contra mim é por causa das minhas posições, não políticas, mas sim contra o mal, os assassinos. Não sou o primeiro e nem serei o último [contra a RENAMO]. Há muitos grandes académicos não moçambicanos que consideram a RENAMO como sendo uma organização terrorista. Posso citar o Joseph Hanlon, um grande académico britânico que escreveu muitos livros sobre Moçambique e a região da África Austral. A perseguição [contra mim] é por eu estar contra estas coisas, contra as atrocidades da RENAMO. Não é por causa de eu ter desviado fundos. Mesmo hoje quem visite a AIM há-de ver o que eu fiz lá, deixei uma obra, não enriqueci. E o Paul Fauvet, um dos jornalistas mais antigos na AIM, já escreveu que o Gustavo não roubou aqui - pelo contrário, combateu os corruptos. E isso é uma grande verdade.

DW África: Em nenhum momento se provou o seu envolvimento em ilícitos. Entretanto, a oposição não se lembrou disso no Parlamento, na última sexta-feira. O que acha do "esquecimento" da oposição?

GM: Também é afirmativo. Nunca se provou que eu tenha estado envolvido em alguns ilícitos. Houve alegações de pessoas de má fé, que foram investigadas, e eu respondi com toda a propriedade e provei a minha inocência. Portanto, nunca se provou que eu tivesse feito algum ilícito, não. Agora estou fora da AIM há quase cinco anos, estou como um homem livre. E é por isso mesmo que os que sabem dessa minha inocência, da minha retidão e rigor, me propuseram para esta comissão. Não é nenhum favor, estão a reconhecer em mim o indivíduo sério, íntegro e trabalhador. Não é nenhum prémio, não é nada que tenha a ver com isso. É o reconhecimento de um dos cidadãos de que deve ser valorizado, porque se espera dele um desempenho eficaz e transparente, um desempenho que seja a favor daquilo que se deseja que esta organização seja, de facto.

por: Nádia Issufo

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