“O simples facto de ter sido anunciado é uma grande vitória, porque havia uma grande resistência interna a que se fizesse qualquer mudança que pudesse acomodar essa descentralização. Havia uma ideia de que a descentralização por si mesmo era má, e embora não esteja anunciado que mudança vai ser introduzida, ela vai permitir a paz”, disse o escritor à agência Lusa, à margem de uma sessão do ciclo “Camões dá para falar”, realizada ao final da tarde de ontem, na sede do Instituto Camões, em Lisboa.

O autor do romance “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, disse que este anúncio é uma “boa nova, para quem sofreu 16 anos de guerra e com a possibilidade dela continuar”.

O Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, anunciou na passada quarta-feira que vai remeter à Assembleia da República uma proposta de revisão pontual da Constituição após os consensos alcançados nas negociações de paz com Afonso Dhlakama, líder da oposição (Renamo).

A proposta de revisão prevê que os governadores das províncias e os administradores dos distritos deixem de ser indicados pelo poder central, para passarem a ser propostos pelas forças que vencerem as eleições para as assembleias provinciais e distritais.

Ontem, em Lisboa, Mia Couto, referindo-se ao acordo alcançado, que prevê a indicação das autoridades locais pelas respectivas assembleias, disse: “é já uma garantia que temos, que vai acontecer, certamente”.

Questionado sobre a presença de presumíveis radicais islâmicos no norte do país, o escritor afirmou que não há certezas sobre a questão, mas reconheceu que está apreensivo.

A Polícia da República de Moçambique (PRM) anunciou no dia 10 de Outubro último que tinha detido 52 suspeitos de ligação a um grupo armado de inspiração radical islâmica, de que faziam parte jovens locais, e que tinha atacado a Polícia a 05 de Outubro no comando de Mocímboa da Praia, na província nortenha de Cabo Delgado, e noutros dois postos nos arredores.

A vila de Mocímboa da Praia esteve praticamente paralisada durante dois dias, devido aos tiroteios entre a Polícia e o grupo armado, confrontos dos quais a PRM disse ter resultado a morte de dois agentes, de 14 agressores e de um líder comunitário, que terá sido abatido pelo grupo, além de um número indeterminado de feridos.

“Quanto a esse tipo de fenómeno, o radicalismo islâmico, estamos muito preocupados, é preciso fazer alguma coisa e só espero que essa alguma coisa seja realmente eficiente”, afirmou o escritor.