“Espero que este tenha sido o único ano que tivemos de fazer isto e que para o ano possamos fazer a vigília na rua”, disse Luis Leong, um dos cerca de 10 participantes do evento organizado numa casa do deputado pró-democracia Ng Kuok Cheong, que serve de sede da União de Macau para o Desenvolvimento da Democracia, associação que organiza as vigílias em Macau, que se costumam realizar no Largo do Senado.

O território já não regista casos novos da covid-19 há cerca de dois meses e já não tem nenhum caso ativo.

Minutos antes, por volta das 20:00 locais e a poucos metros de distância, no Largo do Senado, não se verificava qualquer movimento fora do comum, constatou a Lusa no local, um dia depois de a Polícia ter avisado que não iria tolerar atividades que violem a proibição de reuniões públicas instaurada para combater a pandemia, recordando as sanções aplicáveis.

Ao contrário, a poucos quilómetros de distância, na vizinha Hong Kong, que juntamente com Macau são os únicos sítios na China onde Tiananmen pode ser lembrado, milhares de pessoas romperam as ordens policiais para assinalar o evento.

A ‘harmonia’ de Macau contrastou com a de Hong Kong, onde se verificaram, uma vez mais, confrontos com a polícia, que tentou impedir as reuniões públicas, também não autorizadas no território pela mesma razão: a covid-19.

Já dentro da casa em Macau, pouco depois das 20:00, fez-se um minuto de silêncio pelas vítimas do massacre de 4 de junho de 1989, que Pequim nunca reconheceu. Os participantes sentaram-se, de seguida, com velas de plástico à frente de cada um, para ouvirem os discursos, cantarem músicas relativas ao movimento democrático de 1989 e verem imagens de vídeo alusivas aos acontecimentos da época.

Há entrada, um cartaz grande fazia uma alusão irónica à expressão utilizada pelas autoridades para a prevenção à COVID-19. “Vamos todos persistir”, mas que a associação utilizou-a para outra função: “Vamos todos persistir (…) investiguem a responsabilidade do massacre”.

Luis Leong disse que, se nada for feito, “pode ser o início de uma ditadura”, congratulando-se, contudo, que várias pessoas estivesssem a seguir o evento através de diversas plataformas online.

Ao início da tarde, ainda havia a esperança por parte de uma outra associação pró-democrática, a Associação Novo Macau, de o território poder assinalar a data de uma forma criativa: a ideia era realizar várias ‘mini-vigílias’ em diferentes locais emblemáticos da cidade, com reuniões até cinco pessoas, de forma a respeitar as diretrizes contra aglomerações instauradas por causa da pandemia.

Contudo, por volta das 17:00, a Associação Novo Macau ficou a saber que o Tribunal de Última Instância (TUI) não se pronunciou sobre a proibição de realizar ‘mini-vigílias’ no aniversário de Tiananmen, um recurso apresentado na segunda-feira após o Corpo de Polícia de Segurança Pública ter também proibido esta iniciativa, voltando a utilizar as mesmas justificações usadas para interditar a vigília organizada todos os anos pela Associação de Desenvolvimento da Democracia de Macau, na Praça do Leal Senado.

“Não foi por causa da COVID-19, isto foi uma decisão política”, afirmou aos jornalistas o deputado pró-democracia Sulu Sou, na sede da Associação Novo Macau. “Estamos muito desiludidos (…) o TUI é suposto ser a última esperança para proteger os direitos fundamentais dos cidadãos”, considerou.

Macau e Hong Kong são os únicos sítios na China que podem assinalar a data, recordou o mais jovem deputado de Macau, mas este ano, lamentou: “Não tivemos hipóteses”.

“Estamos muito preocupados que no próximo ano também não vamos poder fazer a vigília em Macau”, afiançou.

A transferência da administração de Macau ocorreu no final de 1999, pouco mais de dois anos depois de a China ter recuperado a soberania sobre a antiga colónia britânica de Hong Kong.

Em ambos os casos, Pequim aplicou o princípio “Um País, Dois Sistemas”, que permitiu a Hong Kong e Macau manterem o sistema capitalista e o seu modo de vida, incluindo direitos e liberdades de que gozavam as respetivas populações.

As duas regiões têm autonomia em todas as áreas, exceto na diplomacia e na defesa.

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