Isaltina Lucas já não é assessora do primeiro-ministro Carlos Agostinho do Rosário. Renunciou ao cargo numa altura em que a sua nomeação estava a ser contestada, por alegado envolvimento no caso das chamadas "dívidas ocultas".

O deputado da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), António Muchanga, criticou a nomeação quando o primeiro-ministro se deslocou ao Parlamento, no início de abril, na companhia de Isaltina Lucas para apresentar o Programa Quinquenal do Governo.

À agência DW, António Muchanga disse esta terça-feira que saúda o afastamento de Isaltina Lucas, por não acreditar que seja alguém que "está para combater a corrupção". Mas pede mais: "Para a maioria de nós, o lugar de Isaltina é no Língamo [cadeia], onde estão os outros, porque isso também demonstra que se está a combater a corrupção de uma maneira seletiva".

"Dívidas ocultas"

As "dívidas ocultas" foram contraídas a favor de três empresas com o aval do governo sem o conhecimento do Parlamento e dos parceiros internacionais. Na altura, Isaltina Lucas era diretora do Tesouro no Ministério da Economia e Finanças.

Uma auditoria realizada pela consultora Kroll afirma que ela "recebeu 95 mil dólares pelo [seu] papel durante o período de agosto de 2013 a julho de 2014 pela EMATUM", uma das empresas que contraiu as dívidas.

Lucas, que ocupou mais tarde o cargo de vice-ministra da Economia e Finanças, teria igualmente assinado pareceres favoráveis à emissão das garantias do Estado para a concessão dos empréstimos.

À DW África, António Muchanga da RENAMO, explica que não fazia sentido nomear Isaltina Lucas, especialmente neste momento: "O Governo diz estar comprometido com uma negociação com a comunidade doadora internacional, e está num momento de reconciliação com os moçambicanos, que foram lesados pela atitude irresponsável dela."

Presunção de inocência

Isaltina Lucas não é arguida no processo aberto pela Procuradoria-Geral da República, um caso que conta com 20 arguidos, 19 dos quais estão detidos. Também se encontra detido na África do Sul o então ministro das Finanças na altura da contração das dívidas, Manuel Chang.

Isaltina Lucas consta, no entanto, de uma lista de 16 pessoas que o Ministério Público remeteu ao Tribunal Administrativo, pedindo que fossem responsabilizadas financeiramente.

Uma fonte próxima de Isaltina Lucas comentou as pressões para a sua resignação defendendo que ela goza de presunção de inocência, por não ter sido constituída arguida.

O deputado da RENAMO, António Muchanga, acredita, porém, que há pessoas que estão a ser protegidas e outras que devem ser expostas: "Eu penso que não é uma boa maneira de governar um país", refere.

Autor: Leonel Matias (Maputo)

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.