Isabel de Noronha, a realizadora do filme que conta a história da vida de Malangatana, conversou longamente com o SAPO MZ acerca do Mestre, alguém que ela considera ter vivido de uma forma sábia.

O que a levou a realizar o filme, ‘Ngwenya, o Crocodilo’?

Isabel de Noronha (IN) – Esta história é muito antiga. Remonta, no mínimo, aos meus seis anos, quando eu era colega da Cecília, filha do Malangatana. Fizemos toda a escola primária juntas, isto ainda no tempo colonial. Estudávamos em casa dela, no bairro do aeroporto. O ateliê do Mestre era também aí. Lembro-me que era um espaço relativamente pequeno. Eu adorava ir para lá e como vivia deste lado da cidade, no cimento, o meu contacto com o universo das pessoas negras resumia-se aos empregados domésticos de minha casa e à Cecília. Apesar de ser criança, quando encontrei o Malangatana, quando vi os seus desenhos e quando ouvi as suas histórias, comecei a entender que estava pela primeira vez perante uma pessoa que me poderia explicar em português esse universo. Com ele Poderia fazer uma espécie de iniciação a esse universo. Por isso, o que me levou a fazer este filme foi a necessidade que querer conhecer esse universo ronga, que o Malangatana me apresentava daquela forma fantástica.

O cenário de Matalana, terra natal do Mestre, é muito privilegiado no filme. Foi proposta dele ou partiu de si?

(IN) – Foi ele que propôs. Mas na verdade já tinha sido partilhada na minha infância. Durante as férias, até ao fim do liceu, a Cecília ia para Matalana, para casa da avó, mãe de Malangatana. Ela era uma figura mítica. A Cecília vinha sempre cheia de histórias de Matalana, por isso, embora nunca lá tivesse ido, aquele universo, narrado por ela, era-me familiar. Ela fazia igualmente muita questão em trazer coisas que na cidade não conhecíamos, como por exemplo uma erva para amaciar o cabelo a seguir ao banho. Tudo isto me despertava curiosidade. A primeira vez que fui a Matalana foi em 2006 para efectuar a pesquisa. Estive na casa Por Enquanto, como ele chamava. Era a casa que ele tinha construído enquanto esperava pela construção da casa grande. A última vez que fui ter com ele a Matalana foi em Agosto deste ano. Ele ainda estava na casa Por Enquanto.

No filme é muito visível o gosto do Mestre pelas crianças.

(IN) – O Malangatana nunca deixou de ser criança. Uma coisa fantástica era que ele conseguia não ter idade. Conservava dentro dele, simultaneamente, uma criança, um adolescente, um adulto. Acho que de velho ele só aceitava a parte da sabedoria e não a parte das limitações físicas da idade. Essas, ele nunca aceitou. Isso era muito curioso e nas filmagens transparece muito isso. Quando ele estava com as crianças era uma criança. Quando estava entre mulheres era um jovem galanteador. Quando estava entre a família era um adulto respeitado e escutado. Ele conseguia ter dentro de si todas essas figuras vivas.

O filme revelou-lhe facetas de Malangatana que não conhecia?

(IN) – Na verdade nada me surpreendeu. Foi como se tivéssemos feito juntos a tal viagem de iniciação a esse universo dele e, no fundo, foi um aprofundar gradual das questões que eu levantava em criança. Tinha a sensação de o conhecer há muito tempo. Ao fazer o filme tive a sensação de o estar a conhecer de um modo mais profundo. Esse aprofundamento foi, em alguns aspectos, muito denso.

Quais eram esses aspectos que já conhecia?

(IN) – Por exemplo a sua relação com os espíritos. A forma como ele convivia diariamente com esse universo espiritual, sobretudo com a mãe dele e o clã Ngwenya. Mas, o que mais me marcou foi a sua relação com os espíritos da sua família. Para mim não foi nada simples porque isso implicou que eu própria tivesse que me envolver nessa teia de relações espirituais. Em determinado momento, quando estávamos a filmar, apareceu a visitá-lo o pintor português Lagoa Henriques. Lagoa Henriques estava a fazer uma viagem de despedida porque sabia que em breve, devido à doença, iria morrer. Malangatana, ao fazer as apresentações, disse: Esta é a minha filha, não de nascimento, mas espiritual. E depois acrescentou: - Para vocês perceberem melhor o que estou a dizer eu acredito que ela conheceu a minha filha quando eram crianças para poder chegar até mim e, hoje, trinta e tal anos depois, poder fazer este filme e contar a minha história da maneira como eu gostaria que fosse contada. Foi assim que ele me apresentou. Foi a primeira vez que vi verbalizado como ele entendia a minha entrada no universo espiritual da sua família. Ele acreditava que o filme devia ser feito desde que eu, com seis anos, conheci a Cecília. Isto revela uma enorme crença nos caminhos espirituais onde as pessoas se cruzam com determinado propósito.

Como é que classifica Malangatana enquanto artista?

(IN) – O traço que me chamava mais a atenção no Malangatana, e que procurei trazer para o filme, foi a tentativa de ele não se deixar classificar. Ele não colocava rótulos naquilo que fazia e isso era muito perceptível na tentativa de estabelecer uma espécie de equilíbrio entre o mundo da tradição, que ele continuava a habitar profundamente, e a modernidade na qual se movimentava enquanto artista. O facto de ele ter um pé de cada lado fazia com que, criativamente, conseguisse estar na vida encontrando as respostas que fossem necessárias em cada momento. Se a resposta para expressar o seu inconsciente era a pintura então pintava, se alguma coisa lhe surgia mais em palavras escrevia, se estava numa situação em que precisava de falar numa forma que não fosse tão formal contava uma história ou cantava uma música. Tenho por isso muita dificuldade em classificá-lo.

Que grande homenagem se pode agora prestar ao Mestre?

(IN) – Acho que nos últimos tempos ele foi deixando traços daquilo que gostaria que fosse feito. O centro cultural de Matalana é o traço principal. Ele criou aquele centro na esperança do que aquilo que ele construiu como artista de alguma maneira beneficiasse também a comunidade. Acho que pôr aquele centro cultural a funcionar é uma coisa que seguramente lhe daria muito prazer.

Acha que Matalana pode ser uma referência cultural neste país?

(IN) – Acho que pode e deve. É muito perto da cidade de Maputo, é de fácil acesso, é uma zona que ainda mantém arreigadas as características da cultura ronga mais profunda. Não sei quanto tempo isso vai durar porque já chegou lá a electricidade e essas coisas da sociedade moderna que normalmente destroem todos os outros traços culturais. Mas acho que alguma tentativa tem de ser feita para preservar aquele centro cultural como um lugar não só de referência cultural mas também académica. É riquíssimo para se efectuar pesquisas etnográficas, ao nível da música, do conto, da dança, da escultura. Há muitas formas de pôr o centro a funcionar.

Para terminar uma palavra para descrever o Mestre?

(IN) – Ngwenya, que significa crocodilo na língua ronga. Era assim que ele se apresentava. Era uma figura muito forte e protegia-se o suficiente para não ser atacado. Era profundamente sábio na sua maneira de ser e estar.

Cristóvão Araújo