Francisco vai visitar Moçambique entre quarta e sexta-feira, numa altura em que ataques de grupos armados não mostram abrandamento na província de Cabo Delgado, norte do país, região com forte implantação do Islão e onde nascem os megaprojectos de exploração de gás natural.

Em declarações à Lusa, Amad Camal, antigo deputado da Assembleia da República e um dos empresários muçulmanos mais conhecidos no país, considerou que a visita de papa Francisco será uma oportunidade para dar destaque à violência em Cabo Delgado.

“O papa vai colocar no holofote do mundo todas as questões que nos preocupam" e, "naturalmente, as insurgências serão expostas”, considera Amad Camal.

A atenção da opinião pública internacional à volta da presença de Francisco em Moçambique vai ajudar a “desmascarar” a natureza da violência armada em Cabo Delgado, que é criminosa e não religiosa, acrescentou.

“A presença do papa irá trazer para a ribalta todas essas questões e isso vai expor Moçambique, de uma forma positiva e, se calhar, desmascarar os insurgentes que nos criam dificuldades”, frisou.

Em declarações à Lusa, o diretor do Instituto de Estudos Económicos e Sociais (IESE), um centro de pesquisa independente de Moçambique, Salvador Forquilha, considera que uma interpretação radical do Islão não deve ser descurada no estudo da violência em Cabo Delgado, mas devem também ser considerados outros fatores.

“Podemos encontrar muitas interpretações [sobre as causas da violência em Cabo Delgado]: conflitos de terra, interesses económicos ou recursos naturais, mas há também, de facto, uma tese que vai nessa linha de ‘jihad’”, assinalou Salvador Forquilha.

Forquilha, que participou num estudo “exploratório” sobre a violência na região, defende que há uma convergência na ideia de que a violência em Cabo Delgado começa com manifestações de uma prática de Islão próxima do fundamentalismo.

Sobre o facto de o Estado Islâmico ter reivindicado a autoria de algumas ações na violência em Cabo Delgado, aquele investigador admite que se possa tratar de propaganda, porque ainda não há evidências sobre a presença do grupo no norte de Moçambique.

“Infelizmente, neste tipo de coisas, há muita propaganda, é do interesse [do Estado Islâmico], dizer: 'estamos a alargar o espaço de atuação', mas fica difícil aferir a veracidade da reivindicação”, disse Salvador Forquilha.

Eric Morier-Genoud, especialista em História Africana, chama à atenção para o risco de uma análise redutora à religião sobre a violência em Cabo Delgado, porque a causa pode ter evoluído para outro tipo de reivindicações.

“Há um aspeto religioso, mas há outras coisas que estão lá, como a pobreza e o desemprego”, defendeu.

O Estado, os pesquisadores e a sociedade, no geral, vão precisar de uma análise “mais sofisticada” para compreender as causas da violência em Cabo Delgado, disse à Lusa.

O conselheiro do Estado e líder muçulmano moçambicano Saíde Habibe também considera que seria um erro concentrar a compreensão da instabilidade em Cabo Delgado no radicalismo islâmico.

“Podemos olhar [para a situação em Cabo Delgado] de vários pontos de vista", mas "há vários setores que estão no terreno a fazer estudos, incluindo a própria comunidade muçulmana, para compreender a natureza deste fenómeno”, afirmou.

Aquele líder religioso disse ainda que não existem dados concretos que corroborem a reivindicação do chamado Estado Islâmico de autoria de algumas ações associadas à violência em Cabo Delgado.

“Fica difícil assumir que a reivindicação do Estado Islâmico em Cabo Delgado tenha um chão de credibilidade, até agora não temos evidencias”, assinalou Abibo, coautor de uma das primeiras pesquisas sobre a violência em Cabo Delgado.

O papa Francisco chega a Moçambique na quarta-feira para iniciar um périplo que o levará no dia 06 a Madagáscar e no dia 09 às ilhas Maurícias.

Os pontos altos da visita a Moçambique são um encontro inter-religioso com jovens num pavilhão desportivo da baixa de Maputo e uma missa no Estádio do Zimpeto em que são esperadas até 90 mil pessoas, segundo a organização.

A visita de Francisco acontece um mês depois de assinado o terceiro acordo de paz no país entre o Governo e o principal partido da oposição (Renamo).

Antes dele, João Paulo II visitou Moçambique em 1988, antecedendo o primeiro acordo que em 1992 poria fim à guerra civil.

De acordo com o censo geral da população moçambicana de 2017, a religião católica é seguida por 26% da população, o maior grupo, o Islão representa 18%, a religião zione 15%, evangélicos/pentecostais 14% e anglicanos cerca de 1%.

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