“Há claramente um papel para a segurança privada [na região de Cabo Delgado], eu próprio não tenho dúvidas sobre isso, mas o tipo de propostas que Erik Prince tem feito não é certamente adequado à situação, não obstante o forte ‘lobbying’ que ele e vários consultores seus têm vindo a fazer”, afirmou em declarações à Lusa o director do Programa para África do Royal Institute of International Affairs (RIIA), a prestigiada Chatham House, em Londres.

Erik Prince, fundador da Blackwater Security, uma empresa de segurança privada conhecida pelas suas atividades no Iraque, e presidente do Frontier Services Group (FSG), assinou em dezembro de 2017 um acordo de parceria para a viabilização de uma das empresas estatais moçambicanas envolvidas no escândalo das dívidas ocultas de Moçambique no valor de dois mil milhões de dólares – a Ematum.

O mesmo empresário foi também notícia na comunicação social internacional em maio do ano passado por alegadamente ter assinado uma parceria entre uma das suas empresas - Lancaster 6 Group (L6G), com sede no Dubai – e outra das empresas moçambicanas envolvidas no escândalo da dívida oculta - a Proindicus -, criando uma empresa, a Pro6, destinada a oferecer serviços de segurança na região, no valor de 750 milhões de dólares.

“O combate da seita militante que tem estado a operar em Cabo Delgado obriga a uma abordagem muito mais subtil do que aquela que o senhor Prince está a oferecer e a tentar convencer várias pessoas dos seus méritos”, afirma Alexa Vines.

“Ele é apenas uma das muitas pessoas que têm oferecido consultoria e aconselhado o governo moçambicano. Mas, caso o Governo moçambicano avance no sentido do envolvimento de empresas privadas de segurança, penso que estas devem ser escolhidas com muito cuidado”, avisou o diretor da Chatham House.

Por outro lado, Vines fez ainda questão de sublinhar, que “aconteça o que acontecer, é também preciso que estas empresas privadas de segurança trabalhem em colaboração com o exército e as forças de segurança moçambicanos”.

Uma resposta ao problema apenas com o uso de empresas de segurança “não conseguirá resolver o problema”, reforçou o investigador.

“Qualquer resposta à questão da segurança em Cabo Delgado implica um envolvimento do Estado numa relação com as populações muito mais subtil, para além de uma aposta no desenvolvimento social”, salientou o analista.

Alex Vines foi o anfitrião na Chatham House no início do mês de uma reunião onde participaram especialistas e representantes de petrolíferas que se preparam para iniciar a extração de gás liquefeito na região.

O director da Chatham House escusou-se a comentar sobre o conteúdo de eventuais preocupações ou intenções das petrolíferas com interesses na região – Anadarco, Exxon Mobil, Eni, Galp, etc. – até porque a reunião foi realizada segundo as regras de sigilo do instituto, mas esclareceu, em termos genéricos, que “as grandes empresas petrolíferas que estão no local trabalham noutras regiões também perigosas. Não são inexperientes em lidar com situações com conflitos e violência”.

“Portanto, o que esta situação vai fazer é aumentar os custos de produção e as companhias terão que considerar a hipótese de virem a necessitar de investir em segurança, mas penso que isso não irá travar os investimentos”, considerou.