Yolanda Garrafão, uma das porta-vozes da iniciativa lançada por jovens guineenses para registar, denunciar e dar seguimento judicial de casos de violência contra a mulher, disse à Lusa que a “polícia parece não pretender atuar” perante casos concretos de agressões físicas.

Num comunicado enviado à Lusa, as promotoras da iniciativa “Mulher não é tambor” relatam três casos ocorridos este mês em diferentes bairros de Bissau e que foram denunciados à polícia, que “não terá tomado as diligências que a lei impõe”.

Uma mulher de 37 anos, moradora do bairro de Plubá, arredores de Bissau, sofreu várias agressões físicas do marido por causa do cão da família, atropelado mortalmente por um carro.

“Depois das agressões físicas, a mulher ainda ameaçou que ia apresentar queixa à polícia. O marido respondeu-lhe que podia queixar-se onde quisesse que o caso não ia dar em nada”, escreveram as promotoras da iniciativa “Mulher não é tambor”.

Incentivada, a mulher apresentou uma queixa formal, mas que ainda não teve seguimento.

Na semana passada, um jovem, de 20 anos, morador no bairro de Cuntum, arredores de Bissau, contou que foi agredido com lâminas de vidro de uma garrafa partida por um grupo de jovens, alegadamente por ser homossexual.

O ofendido explica que ao apresentar queixar na polícia foi motivo de escárnio dos próprios agentes.

“O rapaz disse-nos que já se cansou de tanto apanhar e de ser gozado pelos colegas, familiares e até da própria polícia”, relataram outras ativistas do movimento “Mulher não é tambor”.

Apesar de o foco da iniciativa se centrar nas mulheres e jovens raparigas, Yolanda Garrafão disse à Lusa que a discriminação e violência contra homossexuais e lésbicas “também deve fazer parte da pauta” da luta do movimento por se tratarem de violações dos direitos humanos.

No bairro de Bor, subúrbios de Bissau, uma jovem de 15 anos, empregada doméstica, relatou que teria sido assediada sexualmente pelo patrão, na ausência da sua mulher, que se tinha deslocado ao mercado.

Denunciado à polícia pela irmã da vítima, o agressor ainda esteve por algumas horas na esquadra, mas acabou por ser solto depois de pagar “uma multa” que correspondia a três salários mensais da empregada, que se despediu do emprego.

A porta-voz da iniciativa “Mulher não é tambor” defendeu que ainda que a polícia não esteja a fazer o que “realmente devia fazer”, a própria população guineense não tem denunciado, “como devia”, perante casos de violência baseado no género.

“Às vezes é a própria vítima que tem relutância em apresentar queixa porque a família não quis ou porque o agressor mostrou-se arrependido e pediu perdão”, afirmou Yolanda Garrafão.

A ativista observou que enquanto perdurar na mente dos guineenses a forma tradicional de olhar por questões de agressões conjugais e o princípio de conciliação “com base na ideia de que a mulher tem que apanhar e sofrer”, dificilmente a Guiné-Bissau poderá ultrapassar o flagelo de violência doméstica.

A iniciativa “Mulher não é tambor” foi lançada em junho por um grupo de mulheres guineenses que acreditam que casos de violência conjugal e na própria sociedade têm vindo a aumentar no país desde que as autoridades decretaram estado de emergência sanitária devido à pandemia do novo coronavírus.

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