O direito à sobrevivência são dois lados da mesma moeda quando se trata da natureza e do homem. Nem sempre é fácil arbitrar de que lado está a verdade quando a fome bate à porta. Foi o que o Sapo MZ testemunhou na praia da Barra, na Província de Inhambane.

O sol acabara de acordar quando os pescadores se lançaram ao mar nos seus dawhs, embarcações arabicas de madeira movidas a vela e vara. Ancoraram bem perto da margem, pois a forte ondulação não lhes dava tréguas. As redes boiavam coloridas na água e o vento soprava uma aragem bem ofegante, queimando matreiro a pele. Da areia vislumbrava-se cada movimento efectuado pela tripulação.

Domingos, natural desta Província passeava ao nosso lado, traduzindo algumas palavras do português para o dialecto local, bitonga. De repente, três crianças sobressaíram na imensidão daquele mar agitado. Iam em fila indiana pulando as ondas, enquanto seguravam uma corda verde de plástico. De vez em quando uma espécie de barbatana espreitava por entre a rebentação. Agitada. Lutava pela vida.

Ao longe surgiu a duvida: um tubarão? Mas quando nos aproximamos deparamo-nos com uma manta bebé, que segundo consta ficara presa na rede durante a fauna. Esbracejava fortemente procurando libertar-se das amarras que a arrastavam pela rebentação. Perdeu a força, acabando por morrer. Esta viagem durou cerca de dez minutos. Estes miúdos como se diz em Portugal: pintaram a manta.

Ainda incrédulos com a cena, aparece um jipe que trava rápido na areia, descarregando um grupo de nadadores salvadores da equipa do Manta Scub Diving, da Barra que se lançaram ao mar vestidos. Agarraram-na, e gritavam em inglês: “ Uma tesoura, depressa uma tesoura e seguravam-na com imenso carinho” mas não traziam material de salvamento e tiveram de ir buscar ao centro, enquanto isso alguns ficaram dentro de água segurando-a carinhosamente à espera de socorro. Ancha, professora de mergulho diz que a personalidade afável e amigável deste animal geralmente lhe custa a vida, pois adora conviver com os humanos que praticam mergulho nestas águas.

Os miúdos fugiram e os pescadores foram chamados ao local para explicarem o porquê deste incidente ecológico. Garantem que a manta ficara presa na rede.  Mas a dura realidade é que a população vive da pesca e tem de sobreviver a cada dia. A vida em Moçambique não é fácil. Babuma, professor de mergulho explica aos pescadores a importância de preservar esta espécie. “Os turistas viajam para a nossa costa para mergulhar e vislumbrar a nossa fauna. Se as matamos, acabamos por perder estas visitas fundamentais para o desenvolvimento do nosso país”, afinaça, enquanto tenta formar os locais, utilizando o bitonga para se fazer entender.

Tudo foi resolvido de uma forma amena e pacífica, enquanto Andreia, uma investigadora americana que está a tirar o doutoramento em Moçambique sobre a Manta, recolheu tecidos para amostra, catalogou e garantiu que esta era uma nova espécie que ainda não tinha observado nestas águas.

À tarde, a caminho da praia do Tofo, a mesma manta havia já sido esquartejada e viajava numa caixa de plástico cor-de-rosa. O seu destino era o mercado. Cada pedaço custava 50 meticais, cerca de dois euros. Será que a lição ficou estudada? A lei moçambicana ainda não é clara sobre este tema. Mas a natureza em Moçambique é de uma beleza ímpar e tem de ser preservada. É ainda um pedaço de paraíso, por isso é importante formar e informar os locais sobre as ameaças da extinção de determinadas espécies.

Teresa Cotrim

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