Os ataques dos insurgentes no extremo norte de Moçambique já provocaram a deslocação de mais de 250 mil famílias, que procuram refúgio em outros distritos da província de Cabo Delgado e nas províncias vizinhas de Nampula e Niassa.

A maior parte das famílias está concentrada em Pemba, a capital provincial, em casas de familiares e conhecidos. Porém, não há capacidade para gerir e atender às necessidades de toda a gente.

António vive em Pemba, recebeu parentes oriundos de Quissanga e diz que "a vida tem sido um pouco difícil por causa dos recursos de alimentação, que são poucos", apesar dos vários apoios do Governo e de outras entidades.

"Temos que agradecer porque temos tido ajuda alimentar, mas estas ajudas devem continuar, porque a dificuldade ainda prevalece e não contamos que isto vai normalizar em poucos dias", considera.

Rotina dos deslocados

Alexandre, um deslocado que fugiu do distrito de Quissanga para a capital de Cabo Delgado, onde foi acolhido com outros 22 membros da sua família, descreve o trajeto diário para conseguir escapar à fome.

"A vida é difícil porque nós, para conseguirmos comer, saímos para a praia, para tentar carregar sacos e fazer outros biscates nos quintais [de outras pessoas]", conta.

O deslocado faz um apelo: "O que eu gostaria de dizer a todo o mundo é que tem que analisar o que está a acontecer ao nosso lado, a situação que nós estamos a passar não é normal. Alguém abandonar a casa para um outro sítio onde nem sabe como é que a vida vai andar, isso é difícil. Então, gostaria de apelar às pessoas que nos têm apoiado para que continuem cada vez mais e não se cansem [de nós]".

Campanha solidária "Juntos por Cabo Delgado"

Entretanto, esta terça-feira (28.07), a Igreja Católica lançou uma campanha de solidariedade em apoio a estas famílias, vítimas dos ataques armados no norte de Moçambique.

Ao apresentar a campanha, o bispo de Pemba, dom Luiz Fernando Lisboa, referiu que a iniciativa visa fortificar as ações das autoridades e de outras organizações humanitárias no terreno na resposta à crise humanitária.

"Não apenas os deslocados estão numa situação muito difícil, mas também os distritos que acolhem os deslocados, as famílias acolhedoras, as autoridades, enfim, toda a província de Cabo Delgado foi afetada. E porque não dizer que está afetado o país, Moçambique. Nós achámos por bem lançar uma campanha dentro do nosso país, da diocese de Pemba, para sensibilizar os moçambicanos com relação a esta situação de Cabo Delgado", afirmou o bispo.

A devastação de aldeias por terroristas teve início no final de 2017. De lá para cá, já se passaram mais de dois anos e meio. Fernando Lisboa considera que, "se a guerra terminar hoje ou amanhã, essa situação de apoio humanitário vai perdurar ainda mais tempo".

"Várias pessoas dentro do país nos cobraram como elas poderiam ajudar. E porque é neste momento que nós estamos a enfrentar a enxurrada desses deslocados, pessoas que não param de chegar, decidimos lançar a campanha. Não há comida que chegue, não há ajuda para poder responder a todas as necessidades", disse o bispo sobre o lançamento da iniciativa.

Apoios

Os apoios - que podem ser em dinheiro ou géneros - deverão ser canalizados às paróquias e dioceses de todo o país, Caritas de cada diocese e nas secretarias da Universidade Católica de Moçambique.

Mas, para já, há prioridades, de acordo com o bispo de Pemba, que merecem ser supridas com urgência, como comida, roupa, esteiras e cobertores.

"Estamos na época do frio. Se alguém puder colaborar com lonas ou tendas é bem-vindo. Quem puder colaborar em dinheiro também é bem-vindo, porque a equipa [aqui no terreno] poderá comprar aquilo que é mais necessário no momento", explicou.

por: Delfim Anacleto (Pemba)

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