Os organizadores disseram que inicialmente planeavam protestar contra a alegada corrupção governamental, mas a manifestação visou claramente o partido no poder no seu todo, com os opositores a usarem nas redes sociais a hashtag #ZANUPFmustgo ("ZANU-PF tem de ir", em português).

As forças de segurança patrulharam as ruas (desertas) nas duas principais cidades do país para impedir a realização das manifestações. O comércio encerrou.

Na quinta-feira (30.07), as autoridades zimbabueanas tinham proibido os protestos antigovernamentais: "Todos os braços de segurança do Governo estão em alerta total e agirão de forma decisiva contra quaisquer indivíduos ou grupos que fomentem a violência", advertiram.

No acesso à capital, Harare, houve mais postos de controlo e barricadas do que o costume. Polícias e soldados paravam os carros para pedir documentos de identificação e de livre acesso. Um jornalista da agência AFP relatou que, no centro financeiro, havia uma forte presença policial na maioria dos cruzamentos. Os agentes estavam equipados com cassetetes e alguns com escudos anti-motim.

"As pessoas estão a viver com medo de criticar o Governo. Temos muitas queixas, mas não podemos sair para protestar porque seremos espancados", afirmou à Reuters um cidadão em Harare.

Em Bulawayo, a outra principal cidade do país, um jornalista descreveu uma situação semelhante, com algumas patrulhas policiais a cavalo.

O porta-voz da polícia, Paul Nyathi, declarou que "a situação de segurança no país é calma e pacífica".

Regresso à era Mugabe

O Presidente Emmerson Mnangagwa descreveu o protesto planeado como "uma insurreição para derrubar o nosso Governo democraticamente eleito''.

No entanto, os críticos acusam o Governo de Mnangagwa de recorrer a táticas autoritárias da era de Robert Mugabe, proibindo manifestações e promovendo o rapto e a detenção de adversários.

A polícia prendeu dezenas de pessoas que tentaram protestar de forma moderada, denunciaram advogados zimbabueanos dos direitos humanos. Entre os detidos, encontram-se a conhecida autora Tsitsi Dangarembga e Fadzayi Mahere, porta-voz do principal partido da oposição no país, o Movimento para a Mudança Democrática.

Mahere publicou um vídeo da polícia a avançar na sua direção e a dizer-lhe para parar de gravar as imagens. Mais tarde, a agência Reuters relata não ter conseguido contactá-la para comentários. Ela foi acusada de "participar numa reunião ilegal", segundo os seus advogados.

Já Tsitsi Dangarembga foi levada num camião da polícia juntamente com outro manifestante quando participava na manifestação num subúrbio da capital, testemunhou um fotógrafo da agência AFP.

Violência anunciada

O país da África Austral está a flexibilizar gradualmente o confinamento para permitir alguma atividade comercial, mas continua a proibir os protestos como parte das medidas de restrição contra a Covid-19.

A oposição e os grupos de direitos humanos afirmam ter testemunhado abusos como prisões, detenções, espancamentos e perseguição de ativistas e pessoas comuns, acusadas de violar o confinamento às vésperas do protesto.

Os porta-vozes da Polícia e do Governo rejeitaram as alegações.

Entretanto, Jacob Ngarivhume, político de um pequeno partido da oposição que havia apelado às manifestações, foi preso juntamente com o proeminente jornalista internacional Hopewell Chin'ono e acusado de incitar à violência pública.

A dupla é acusada de imprudência por organizar um protesto em plena pandemia do coronavírus.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos advertiu o Zimbabué contra a utilização da pandemia como pretexto para restringir as liberdades de expressão, reunião pacífica e associação.

Já a administração de Mnangagwa acusa o Governo dos Estados Unidos de financiar os dois homens e outros ativistas envolvidos na mobilização dos protestos desta sexta-feira.

Pandemia agrava situação dos mais pobres

As tensões aumentam no Zimbabué à medida que a economia implode. A inflação está acima dos 700%, é a segunda mais alta do mundo. E a pandemia do novo coronavírus sobrecarregou ainda mais o sistema de saúde do país.

Nos hospitais públicos, médicos e enfermeiros estão frequentemente em greve e as infraestruturas estão tão delapidadas que "recém-nascidos e mães estão morrem diariamente", de acordo com a Sociedade de Obstetras e Ginecologistas do Zimbabué.

Esta semana, o Programa Alimentar Mundial (PAM) projetou que o número de zimbabueanos que enfrentam insegurança alimentar poderá chegar aos 8,6 milhões no final do ano.

Isso seriam "impressionantes 60% da população - devido aos efeitos combinados da seca, da recessão económica e da pandemia", alertou o PAM, pedindo mais dinheiro para intervir no país.

por: cvt, AP, AFP, Reuters

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