O processo de desmobilização, desarmamento e reintegração das forças residuais da Renamo (DDR) culminou com a passagem à vida civil de 140 ex-guerrilheiras do maior partido da oposição. No total, já foram desmobilizados 985 homens e mulheres, num processo que deverá terminar em junho de 2021 com o desarmamento e reintegração de um total de cinco mil antigos guerrilheiros.

Esta quarta-feira, políticos, académicos, religiosos e membros da sociedade civil sentaram-se à mesma mesa, em Maputo, para discutir formas de garantir a integração plena das antigas guerrilheiras na sociedade, num evento designado "Mulheres e o processo de reintegração no âmbito do DDR: principais desafios".

"Na guerrilha as mulheres participaram em várias atividades militares e sociais, no entanto a nenhuma de nós foi dada a oportunidade de prosseguir com essas atividades, quer seja nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique, quer em outras instituições do Estado", lamenta Albertina Ofiço, antiga guerrilheira desmobilizada em 1994. "Por isso estamos desempregadas", refere.

Segundo Albertina Ofiço, o seu grupo de mulheres recebeu formação em corte e costura, mas os fundos disponibilizados pela Associação de Desmobilizados de Guerra para a implementação de projetos eram irrisórios.

"A falta de formação também não nos permitiu grandes enquadramentos noutras áreas", diz, apelando à concessão de bolsas de estudo para as ex-guerrilheiras.

Mulheres entre as principais vítimas

Já Elisa Muianga, gestora da Academia Política da Mulher, salienta que "a mulher em momentos de conflito é uma das principais vítimas", mas nunca é ouvida durante o processo negocial de desmobilização. "Qual é a garantia de que as necessidades específicas da mulher vão ser atendidas na mesa de negociação?", questiona.

Para Isabel Kavandeca, antiga combatente da Frelimo durante a luta pela independência de Moçambique, há vários fatores a ter em conta na reintegração. "Os principais desafios são as vontades das várias partes, o desafio político, mas também o desafio material, ou seja, prover meios para essas pessoas trabalharem", salienta.

"Mas também há desafios ao nível da aceitação das próprias pessoas e as inserir na comunidade, o que não é tarefa fácil", critica.

Os intervenientes no debate defenderem a realização de campanhas de advocacia para combater a estigmatização e a discriminação dos antigos guerrilheiros nas comunidades.

"Discriminada como mulher eu não me senti, mas discriminada como ex-combatente no geral, homens e mulheres, isso sempre existiu", concluiu Albertina Ofiço.

Autor: Leonel Matias (Maputo)

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