Um grupo de 20 mulheres realojadas após o ciclone Idai em Mutua, no centro de Moçambique, agora ganham a vida a fabricar fogões melhorados, fogareiros aliados do combate às mudanças climáticas para prevenir novos ciclones.

Consomem menos floresta, são mais eficientes e, mais importante para Estrela, “dão dinheiro” para comprar comida e o que mais for preciso para a família. Permitem-lhe sonhar.

“Ajudamos a criar algum emprego, fazer com que a população faça crescer algo”, refere Ghulam Sherani, dirigente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ao explicar como apareceu o forno de fabrico de fogões melhorados.

As mulheres vêm de vários locais em redor da cidade da Beira, de famílias que perderam tudo há um ano, em zonas inundadas, e às quais o Governo decidiu entregar terrenos em zonas altas, nas 72 áreas de reassentamento.

Ali constroem casas de caniço e barro e cultivam hortas, longe de inundações, mas em redor nada existe senão campo aberto e refugiados carregados de traumas.

Uns porque viram familiares morrer arrastados pelas correntes nas inundações provocadas pelo ciclone Idai, outros por passarem três dias ou mais à fome e sede no alto de árvores.

O PNUD apoia-se em organizações locais para tentar virar a página: dá dinheiro e treino, ouve o que os residentes querem fazer e indica os projetos mais seguros, por exemplo, recomendando a criação de patos em vez de galinhas, por serem mais resilientes e mais bem pagos no mercado local.

A ideia era de Joaquim Tom, 32 anos, casado com seis filhos em casa, aficionado das aves que trocou de bom grado a banca de comerciante no bairro da Praia Nova, uma zona de risco na Beira, pela criação de patos.

“Eu antes já estava a processar isso no meu coração, mas lá onde vivia era uma zona insegura”, confidencia, mas muito realojados da Praia Nova percebem é de peixe.

As organizações humanitárias abriram dois tanques de piscicultura em Mutua para criação de alvinos, um peixe “tão grande ou maior” que o carapau, conta Pinto Manuel Pweti, um dos cuidadores da criação.

Por muito precário que seja o bairro de Mutua, Ghulam Sherani acredita que será sempre melhor que os locais de origem de quem acolhe, oriundos de bairros de lata e zonas de risco.

É por isso que Mira Vilanculos, 37 anos, que se queixa da falta de energia eléctrica, mesmo assim, não pensa em voltar para trás: “Saudade de lá [da cidade da Beira], posso ter, mas bom é aqui”.

Rosa Filipe, 64 anos, perdeu a casa com o ciclone, vive na aldeia de reassentamento de Mandruzi, 50 quilómetros a sul, e diz o mesmo: “Ir para onde? Não tenho mais para onde ir, é só machamba e voltar”.

Rapa o tacho de feijão com o um pedaço de chima (papa de milho), enquanto olha sobre o ombro para a casa de caniço e barro à volta da qual brincam os netos.

Ficou a cuidar de oito, dos dois aos 17 anos, uns a cirandar por Mandruzi, outros na escola, depois de perderem a mãe quando a casa também caiu por causa do ciclone.

“Morava na Beira, aqui deram-me uma tenda e agora tenho o meu espaço. Depois de ver um vento como aquele, nunca pensei que ainda pudesse viver assim”, e abre os braços como quem recebe uma dádiva.

Mas nem todas as famílias conseguem largar o chão onde sempre viveram, mesmo depois de saberem que é terra condenada a inundações.

Às portas da Beira, o administrador da vila de Dondo, José Mutoroma, disse no início de Março que admite desencadear uma operação de retirada compulsiva de mil famílias para evitar mortes.

Mais a oeste, em Nhamatanda, centenas de famílias que ainda tentam recuperar do Idai sofreram com novas inundações em fevereiro deste ano e Tomé José, administrador da vila, desabafou: “É muito preocupante e muito desgastante estar a resgatar a mesma pessoa, três, quatro vezes, em intervalos curtos de tempo”.

A resistência da população em mudar-se “tem a ver com fatores históricos”, admite, mas o problema é que, apesar se sempre existirem cheias, não era habitual haver tantas inundações, tão fortes, em tão pouco tempo.

As autoridades e parceiros tentam fomentar a mudança e apoiam-se em histórias como a de Joaquina Albano, 28 anos, que nos é apresentada pouco depois de chegarmos a Mandruzi, porque ela diz que a sua vida até melhorou um bocadinho depois do ciclone.

“A vida está melhor, não muito, mas está. É diferente de lá”, da cidade da Beira, onde ela e o marido viviam de biscates, num bairro lotado, numa casa precária que não resistiu à tempestade.

“As crianças queriam comida e era difícil. Às vezes eu ia comer a casa da minha mãe e à minha casa só ia para dormir. Agora aqui há apoio, também tento biscates e já não temos de pagar renda”.

Mas o que realmente está a animar Joaquina é o trabalho como voluntária a dirigir aulas de alfabetização em português.

“Quero continuar, sim. Por falta de condições parei de estudar no 10.º ano. Mas aqui ensino as mães a escrever e a ler. Até me perseguem aqui em casa para ir dar a aula quando me atraso um pouco”.

Admite que a esperança existe, apesar do que passou durante e após o ciclone Idai, e mesmo que um dia o apoio de parceiros termine, nessa altura já conseguirá chegar ao mês com dinheiro para comprar arroz para os filhos.

Nessa altura já Joaquim Tom espera ter ampliado a sua produção: além dos patos, quer vender cabritos. E porcos.

O período chuvoso de 2018/2019 foi dos mais severos de que há memória em Moçambique: 714 pessoas morreram, incluindo 648 vítimas de dois ciclones (Idai e Kenneth) que se abateram sobre Moçambique.

O ciclone Idai atingiu o cento de Moçambique em Março, provocou 603 mortos e a cidade da Beira, uma das principais do país, foi severamente afectada.

O ciclone Kenneth, que se abateu sobre o norte do país em Abril, matou 45 pessoas.

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