E a seis meses das eleições, é quase uma certeza que, para além da pandemia do coronavírus, os distúrbios através do país vão ser usados naquilo que se descreve muitas vezes como uma “guerra cultural” entre conservadores e liberais sobre valores humanos, históricos e económicos.

Tudo começou quando a polícia foi prender um africano-americano, George Floyd, que alegadamente tinha tentado usar uma nota falsa de 20 dólares numa loja. Ninguém sabe ao certo o que se passou para além, claro, do vídeo horrível do policia branco ajoelhado sobre o pescoço de Floyd que alegadamente teria resistido à prisão recusando-se a entrar no veículo policial.

Um relatório médico disse que Floyd morreu de paragem cardio-pulmonar e compressão no pescoço e que estava “intoxicado” com fentanil havendo indicios de recente uso de anfetaminas.

Outra autópsia levada a cabo por um médico da família revelou que Floyd morreu de asfixia e que, portanto, a sua morte é legalmente um homicidio.

O agente da polícia em causa  tinha sido preso e acusado desse crime.

Qualquer que tenha sido a causa imediata da sua morte, o que é certo é que a ação do polícia branco está diretamente relacionada com a sua morte.

O incidente provocou distúrbios, primeiro na cidade de Mineapolis, e depois através do país.

O incidente ocorreu na cidade de Mineapolis no Estado de Minesota e a congressista de origem somali Ilahn Omar, que representa um círculo eleitoral desse Estado, disse que as imagens de “George Floyd a ter a sua vida asfixiada por um agente da polícia que devia proteger e servir a nossa comunidade” é algo que “ninguém pode apagar”.

“Mas isto serve para nos lembrar que vivemos num país que há muito tempo brutaliza africano-americanos, desde a escravatura, aos linchamentos, à descriminação, a prisões em massa e agora à brutalidade policial”, disse Omar para quem Mineapolis tem “uma das piores disparidades raciais e as pessoas compreendem também que tem havido negligência socio-económica das nosssas comunidades”.

“Temos, portanto, muito trabalho a fazer para sarar, para começar a reconstruir e encontrar um sistema que funcione para todos nós”, acrescentou a congressista

As declarações de Ilhan Omar apontam para aquilo que é descrito pelos criticos do sistema americano de “racismo sistémico”, mais profundo do que o racismo de um ou outro indíviduo, porque abrange assim todo o sistema socio-económico do país.

Há claro está quem não concorde. O Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Donald Trump, Robert O’ Brien, disse que tal não existe.

“Não penso que haja racismo sistémico”, afirmou , afirmando que no que diz respeito à policia um grande número de agentes são africano-americanos que “trabalham nos suburbios mais difíceis e que têm um dos trabalhos mais dificeis” do país

Aqueles que compartiham a sua opinião fazem notar o número de africano-americanos em várias posiçõs importantes a nivel do Estado, das forças armadas e na vida privada.

A antiga conselheira de segurança nacional do Presidente Barack Obama, Susan Rice, também africano-americana, não é dessa opinião e afirmou que O’Brien não conhece a realidade e o que afirma é “rídiculo”.

“Sentamo-nos na mesma mesa, no mesmo escritório na Casa Branca, mas há uma grande diferença, entre nós”, disse Rice ,que acrescentou ser “mãe mãe de um filho negro, tia de um sobrinho negro, irmã de um homem negro e todos os dias quando saiem …. tenho receios”.

“Vivo com esse medo visceral que algo de terrivel poderá acontecer-lhes, que podem ser agredidos ou, pior do que isso, mortos a tiro”, sublinhou Susan Rice para quem “Robert O’Brien não vive com esse medo”.

“É um sistema que é racista, que é injusto, que trata africano-americano de modo diferente qualquer que seja a sua educação, o seu estatuto socio-económico com base na cor da sua pele”, acrescentou a antiga Conselheira de Segurança Nacional e antiga embaixadora dos Estados Unidos na ONU.

“Portanto dizer que isso não é sistémico é não saber o que é a realidade”, concluiu.

Eterno debate

Nesta diferença de opiniões sobre se o racismo é ou não sistémico, é fácil encontrar nas publicações americanas argumentos que refutam ou apoiam essa tese.

Os criticos de Rice farão notar que ela própria, uma africano–americana, ocupou um dos cargos mais importantes na estrutura de segurança nacional dos Estados Unidos. Nessa posicão estiveram também outros negros americanos como Condoleeza Rice e Colin Powe, este último também chefe do Estado-maior das Forças Armadas e secretário de Estado.

As discussões sobre a existência ou não de discriminação sistémica arrastam-se também para o campo das estatisticas, principalmente no caso da violência policial.

Contudo as estatisticas só por si podem ser elas próprias usadas para distorcer a realidade, fazendo lembrar as palavras de um antigo primeiro-ministro britânico para quem “há três tipos de estatísticas, nomeadamente estatísticas, estatísticas e mentiras”

As estatísticas indicam, por exemplo, que mais brancos são mortos pela polícia do que africano-americanos, mas proporcionalmente os africano-americano são a maior parte.

Dados do jornal Washington Post indicam que 45% de todas as pessoas mortas pela policia nos Estados Unidos são brancas e 23% africano-americanos.

Contudo, se se tiver em conta que a populacão africano-americana “é de cerca de 12% da população então proporcionalmente mais negros americanos são mortos pela polícia do que brancos.

Por outro lado, no entanto,  os crimes em termos percentuais são tambem maiores entre a população africano-americana.

Dados da policia federal, o FBI, indicam que, em 2017, 27% de todas as pessoas presas por crimes nos Estados Unidos foram africano-americanas, um número desproporcinal para a sua população, indicando maior incidência de crimes nesse grupo populacional

Mas, depois, há razões sociais e históricas esta realidade, desde a escravatura à discriminaçao num argumento que não tem fim.

Agora começam a surgir acusações de que dirigentes do Partido Democrata não têm tomado as medidas necessárias para pôr termo aos atos de pilhagem e incêndios cometidos por alguns manifestantes, o que poderá pressupor que a violência vai tornar-se numa outra arma eleitoral com o Presidente Trump e os republicanos a apresentarem-se como os defensores da “lei e da ordem”

Num conferência telefónica com governadores, Donald Trump mostrou-se indignado pelo fato de o presidente da câmara de Mineapolis ter dado ordem a uma esquadra da polícia para ser evacuada, permitindo que essa fosse incendida por manifestantes.

Trump disse aos govenadores que tinham que começar a ser mais duros.

O presidente da camara de Mineapolis Jacob Frey teve que vir a público explicar o por quê da sua decisão, afirmando que “o simbolismo de um edificio não pode ter mais importancia da vida dos nossos policias ou do público”

“Não podiamos arriscar ferimentos graves a qualquer pessoa”, acrescentou, dizendo que “tijolos e cimento não são tão importantes como vidas”.

O antigo presidente da Câmara de Nova Iorque, Rudy Giuliani, conhecido pelas suas posições duras no que diz respeito à manutenção da lei e ordem não concorda.

“Democratas progressitas são incapazes de manter o seu povo em segurança porque têm politicas de simpatia com os criminosos que são patéticas, que são perigosas e agora estamos a ver o resultado disso”, disse afirmando que “as cidades que estão a arder….vão ser todas administradas por chamados progressitas democratas idiotas, que deixam os criminosos saírem da cadeia, que dão fiança a assassinos e encorajam este tipo de coisa”.

“Abandonar uma esquadra? O presidente da câamara devia demitir- se. O govenrador devia demitir-se”, acrescentou afirmando concordar que o que se passou com George Floyd foi “um ultraje”, que se deveu também à falta de treino apropriado pelas autoridades democratas da cidade.

“Eu vi pelo menos cinco grandes violações, pelo menos cinco cometidas por esses policias”, concluiu.

As acusações mútuas deverão continuar a aprofundar-se nos próximos meses.

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