Abdicou da carreira um ano para ajudar a erguer o projecto da ilha de Vamizi
 
Óscar Monteiro é professor de direito e administração pública na Universidade de Maputo mas é também investidor da ilha de Vamizi, situada no Arquipélago das Quirimbas. Veste camisas de linho, anda de sandálias e conhece a história do seu país como ninguém. Este Moçambicano com sangue goês abdicou um ano da sua carreira para dar vida a um sonho. Erguer o projecto da ilha. Conta, quando tocou naquela areia macia e imaculada pela primeira vez: “Acampámos. Não havia nada.” Relembro ainda uma noite em que Carlos Queirós se deitou nesta areia da praia, conta enquanto nos conduz até ao magnífico pequeno-almoço, ele estava iluminado apenas pela luz do luar e dizia-me: “Olha como é possível ver o céu estrelado.” “E ali ficámos estendidos em silêncio”, recorda, orgulhoso. Óscar Monteiro conseguiu convencer mais onze moçambicanos da sua geração a fazerem parte do seu sonho.

Equipa do Sapo: Como apareceu a Ilha de Vamizi na sua vida?

Óscar Monteiro: Além das profissões que mencionou também sou advogado e tivemos um cliente o Senhor Cox, o Vincent Judet e o Jean Louis Mazurel, que são investidores no projecto e no início foi difícil fazer andar as coisas. Era muito inovador: organizar o turismo e o apoio às comunidades ao mesmo tempo. E ainda tendo em conta o aspecto da conservação. Gostei muito da ideia e resolvi trabalhar como voluntário.

E.S: E isso durou quanto tempo?

O.M: Um ano ou dois. Depois quiseram que desse a minha opinião e acabei por ir várias vezes a Cabo Delgado e acabei por ir à ilha. Uma viagem de sete horas. Íamos de carro, tínhamos de passar por estradas difíceis com descidas íngremes e perigosas na época das chuvas.

E.S: Lembra-se de alguma história caricata dessa época?

O.M: Um dia um camião ia à nossa frente e estávamos numa dessas subidas quando as suas rodas derraparam e este estava quase em cima de nós. Era aventuroso. Depois ainda apanhámos um barco mas quando chego à ilha disse: “ É a minha perdição. A partir daí deixou de ser um trabalho. Passou a ser uma paixão.

E.S: Foi assim que se tornou investidor?

O.M: Sim. Mas sou um investidor pequeno e organizei um grupo de Moçambicanos da minha geração que também entraram no projecto. Desde economistas, reitores, empresários, presidentes de bancos... Somos onze ao todo.

E.S: Os investidores moçambicanos colocam menos dinheiro do que os investidores estrangeiros?

O.M: Cada um colocou o que podia. E não somos maioritários mas queremos estar ligados a algo que sirva o país. A um turismo de elevada qualidade. Num lodge muito bonito.

E.S: E por este projecto acabou por fazer um ano sabático?

O.M: Foi. Só temos uma vida e se há coisas bonitas a fazer devemos aproveitar. Foi o período de implementar o lodge até à sua abertura. Era preciso dar uma dinâmica, Já tinha estado envolvido em projectos semelhantes e esta foi uma oportunidade de voltar a isso.

E.S: Com tantos investidores como é possível ter retorno?

O.M:O problema não é sermos muitos. Somos todos apaixonados pelo projecto mas não há no grupo um hoteleiro, por exemplo. Posso dizer-lhe que há investidores com 20 mil dólares, outros 50 mil, outros 100 mil. E há quem tenha 500 mil. Mas o grosso situa-se entre os 50 e os 100 mil dólares.

E.S: Há investidores de referência?

O.M:Sim, pessoas que tiveram sucesso na vida e resolveram investir. Na realidade estas pessoas criaram um gosto pelo país. E têm ajudado. Durante 2006 a visita de Armando Guebuza a Londres foi com alguns dos nossos contactos.

E.S:Com tantos investidores como se organizam para que as opiniões não choquem?

O.M:Há um board que toma as decisões. Quanto aos retornos são muito longos. E naquele caso em particular é uma ilha. E não é o Bazaruto, que vai até Vilankulos e de barco consegue abastecer a ilha. Em Vamizi é mais complicado. Tivemos, inclusive de fazer uma pista e montar um serviço aéreo com um custo muito elevado. O retorno pode vir de outras componentes, que são turismo de habitação e ter compradores aproveitando a estrutura que já montámos. Temos unidades de dessalinização, dois técnicos de manutenção, geradores mas foi este investimento que valorizou a ilha.

E.S: Mas até que ponto o turismo de habitação não poderá estragar o ambiente de reserva natural?

O.M:Por isso, temos efectuado vários estudos para ver qual a capacidade que a ilha suporta. Neste caso terão casas mas não vivem lá sempre. Queremos que essas casas tenham um alto controle da ocupação e com escolha da qualidade das pessoas. Será propriedade.

E.S: Quantas casas poderão ser?

O.M: Estamos a ver local por local. E não será feito de uma vez. Será construído um primeiro lote. Queremos fazer com precaução.
 
E.S: O Grupo tem mais projectos?

O.M: Sim. No Continente e temos outras ilhas, caso de Rongui onde provavelmente faremos um lodge um pouco mais pequeno do que este e também casas. A ilha é muito bonita em forma de borboleta com um lago central com cores entre o verde e o azul e bordejado por mangais. Um ambiente de África Oriental. É um local previligiado.

E.S: E mais projectos?

O.M: Temos na ilha de Macaloe. Aí teríamos um aproveitamento global da ilha e tem o Continente muito próximo. Está mais perto do Banco de São Lázaro. Que é preciso ocupar porque senão fica entregue aos long liner – com cordas de 60Km. Terá um hotel boutique, palafitas e talvez investir na pesca desportiva.

E.S: O Grupo preocupa-se com a conservação. Têm dois biólogos em Vamizi, por exemplo. Quanto é que o Grupo gasta com estes profissionais.

O.M: Temos gasto entre 600 e 700 mil dólares por ano. Temos também um projecto de elefantes costeiros.

E.S: Como assim? Há elefantes em Cabo Delgado?

O.M: Há uma linha de migração de elefantes que vem do Niassa e que chega a estas paragens, Quissanga, Macaloe e segundo a ultima informação seriam 180 elefantes.

E.S: E parece que atacam as populações?

O.M: Exactamente. Cheiram quando o arroz está pronto. Procurámos, por isso, identificar e desenvolver com a população duas coisas. Primeiro o licenciamento dos acidentes para saber onde acontecem e para saber gerir e em segundo lugar o uso generalizado do piripiri. Portanto, plantá-lo, juntar com uma massa que arda lentamente, que pode ser o próprio excremento de elefante mas as populações não gostam porque este tem semelhanças com o porco e a maioria é muçulmano, por isso temos optado por utilizar o farelo de milho devidamente compactado. Fez-se um modelo e assim que é dado o sinal esse cheiro afasta os elefantes.
 
Teresa Cotrim e Pedro Curto