A construtora naval Privinvest era a fornecedora de embarcações e equipamentos para as empresas públicas moçambicanas Ematum, MAM e Proindicus que entraram em ‘default’ em 2016 e revelaram dívidas desconhecidas de Moçambique no valor de 2,2 mil milhões de dólares.

Depois da descoberta das dívidas ocultas, um diretor da empresa Privinvest procurou registar transferências de dinheiro feitas desde 2013 para 20 pessoas e uma empresa, num ‘e-mail’ intercetado pelos investigadores da Procuradoria federal dos Estados Unidos da América.

“Anexo um documento relacionado com transferências feitas para «consultores» de projeto moçambicano”, lê-se na segunda linha da mensagem, depois de uma explicação de que estão a ser usadas as contas de ‘e-mail’ pessoais (não as contas corporativas da empresa), “devido à sensibilidade da informação”.

A lista, a que a Lusa teve acesso ontem, foi mostrada durante alguns segundos na última quinta-feira, nas alegações finais do julgamento que decorre em Nova Iorque sobre o caso, pelo procurador Hiral Mehta.

Entre os nomes enumerados na lista estão o antigo Presidente de Moçambique Armando Guebuza, dois filhos deste e a falecida mulher do antigo ministro das Finanças Manuel Chang, Lizete Chang.

A lista também inclui vários diplomatas do Governo de Moçambique no Médio Oriente, como, por exemplo, o antigo embaixador nos Emirados Árabes Unidos Francisco Cigarro, o cônsul no Dubai, José Maneia, ou o conselheiro diplomático Riduane Adamo.

Os consultores do ex-Presidente Guebuza Edson Macuácua, Renato Matusse, Marlene Magaia, Carlos Simango, Neusa Matos e Carlos Pessane também constam da lista.

Muitos dos nomes coincidem com um pedido da Procuradoria-Geral da República de Moçambique, em 2017, para quebra do sigilo bancário, numa investigação moçambicana relacionada com as dívidas ocultas.

Os 21 nomes fazem parte de uma mensagem de correio eletrónico de 13 de abril de 2017, do diretor financeiro da Privinvest, Naji Allam, para uma conta registada com o nome de Ayomin Senanayake.

Segundo o documento, Naji Allam pedia assim que o colega confirmasse os nomes que receberam “transferências diretas” e detalhes de “companhia/quantidade/data”, já que os pagamentos, devido aos valores avultados, eram dispersados pelas várias subsidiárias da Privinvest e para diferentes contas de destino.

“Privilegiado e confidencial” pode ler-se em letras maiúsculas e a negrito no título da lista.

Os primeiros três nomes são do ex-Presidente de Moçambique Armando Guebuza e dos seus filhos Ndambi e “Mussunbuluco”.

O procurador Hiral Mehta comentou, na quinta-feira: “Tem uma lista. Quem está no topo? ‘Mister’ [senhor] nem-um-único-cêntimo Armando Guebuza”, referindo-se ao depoimento do arguido Jean Boustani de que o ex-Presidente moçambicano terá dito que "ninguém, mas ninguém, (…) pode pedir um tostão para fazer um projeto”.

A Justiça norte-americana não fez nenhuma referência a Mussumbuluko Guebuza durante todo o processo, mas Ndambi Guebuza foi considerado conspirador e suspeito de ter recebido 60 milhões de dólares da empresa Privinvest.

Depois dos nomes dos consultores de Armando Guebuza e diplomatas, estão Ângela Leão, esposa de Gregório Leão, dos serviços secretos, e Lizete Chang, falecida esposa do antigo ministro das finanças, Manuel Chang.

A deputada falecida Izidora Faztudo e Guilhermina Langa, alegadamente sócias de Renato Matusse, são outros nomes escritos na lista do diretor financeiro da Privinvest e foram várias vezes referidas durante o julgamento de seis semanas em Nova Iorque.

A lista inclui Maria Gamito, esposa do administrador da Ematum Henrique Gamito, e Salvador Mula.

No final aparecem os nomes de dois moçambicanos acusados no julgamento dos Estados Unidos da América, Téofilo Nhangumele, agente de negócios para a Privinvest, acusado de trabalhar em nome do gabinete do ex-Presidente Armando Guebuza e António do Rosário, antigo diretor dos serviços secretos e diretor da empresa Ematum.

Em 21.º lugar da lista, está escrito, por fim, a empresa Jociro Internacional, uma sociedade de investimentos detida por Ângela Leão e António do Rosário.

O esquema de corrupção terá sido criado com autoridades moçambicanas, como o antigo ministro das Finanças Manuel Chang, que se encontra detido na África do Sul e enfrenta pedidos de extradição para Moçambique e para os Estados Unidos.

Manuel Chang terá autorizado os empréstimos ilegais às empresas Ematum, MAM e Proindicus, sem dar conhecimento ao Governo.

António do Rosário e Teófilo Nhangumele também são arguidos nos Estados Unidos.

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