As recentes ações bem sucedidas das autoridades moçambicanas contra os insurgentes na província nortenha de cabo Delgado devem-se à intervenção de serviços de segurança privados sul-africanos. Contudo, nem tudo terá corrido sempre bem nos acordos entre os mercenários e os seus contratantes. Conversamos sobre este tema, e não só, com o historiador moçambicano Yussuf Adam.

DW África: Os mercenários sul-africanos, em princípio, terão voltado a operar no norte de Moçambique, depois de uma paragem por suposta falta de pagamento por parte das autoridades moçambicanas. Isso revela um certo amadorismo por parte do Governo ao lidar com a insurgência em Cabo Delgado?

Yussuf Adam (YA): Não, eu acho que não vamos saber tão cedo toda a verdade à volta do assunto. Mas, tanto quanto consegui apurar, eles entraram em greve por falta de pagamento, mas não sabemos quem é que lhes paga, não sabemos se o contrato deles era com o Governo moçambicano, se era o Governo que lhes pagava.

DW África: Esta paragem que terá acontecido quebra a constância da forte ofensiva que o Governo tem encetado nos últimos tempos?

YA: Não, na guerra não há fortes nem fracas ofensivas, isso só existe na propaganda. A guerra é algo que se faz todos os dias, penso que as Forcas de Defesa e Segurança (FDS) ou o Ministério da Defesa, etc, tem uma política de resposta a este conflito, só que as respostas nunca são as ideais, é preciso material, gente e dinheiro. Penso que o orçamento do Ministério da Defesa [não é grande], o Ministério da Defesa não é muito robusto, como não é o Orçamento do Estado moçambicano. Nunca nos devemos esquecer que nós vivemos muito dos donativos, das ajudas externas e dos sonhos de que um dia vamos ter muito dinheiro que vai sair dos poços de petróleo, que até agora não existe nenhum. Agora, se essa ofensiva vai ter de continuar, sim, vai ter de continuar, os dois lados têm as suas estratégias e as suas políticas e as interpretações de muitos sobre se isto é uma guerra tribal, eu penso que não é. É basicamente um problema das políticas do Estado e da forma como uma grande parte da população foi marginalizada no acesso ao bolo e dos benefícios económicos e sociais que por ventura chegaram.

DW África: Depois de várias críticas sobre a ausência de comunicação entre o Governo e o povo sobre a situação em Cabo Delgado, finalmente as autoridades estabelecem agora um canal de comunicação. Isso vai permitir acabar com alguma desinformação e a tendência para os boatos?

YA: O comunicado faz uma listagem dos sítios que foram atacados e faz um apelo ao povo, e sobretudo aos jovens para acreditarem e participarem neste combate. Mas, ao mesmo tempo, na semana passada houve, e o Presidente reconheceu isso, uma espécie de abuso de poder involuntário. os abusos de poder não são involuntários, foi exatamente em Pemba, mas acontece constantemente em todos as sedes de distrito, postos [administrativos], estradas. Vemos exemplos frequentes de abuso de poder por parte da policia, do exército, etc. Quando foi do ataque a Bilibiza, os soldados a baterem nos jovens na estrada e até eles próprios filmaram e difundiram os vídeos. Isso só prova que há um abuso de poder sem vergonha nenhuma.

por: Nádia Issufo

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