O Secretário-Geral da UCCLA, Vitor Ramalho, abriu a sessão, saudando todos os presentes. Na ocasião relembrou a importância do Dia de África como o dia em que foi constituída a Organização de Unidade Africana, num mundo que era “completamente diferente do que é hoje, um mundo bipolar, hoje é um mundo globalizado”, acrescentando que “desde os movimentos e partidos de libertação, até aos nossos dias, é útil fazermos uma avaliação daquilo que corresponde ao que foi e ao que será a perspectiva do futuro, e a esperança sobretudo do continente africano”.

A mesa redonda, moderada pelo técnico da UCCLA José Bastos, contou com um leque de personalidades conhecedoras das realidades africanas, foram elas: Jean-Michel Mabeko-Tali, Alberto Oliveira Pinto, Aurora Almada e Santos, Eduardo Costa Dias, Fernando Jorge Cardoso e Nuno Canas Mendes.

Originário da República do Congo-Brazzaville, Jean-Michel Mabeko-Tali deu uma panorâmica geral sobre o tema. Iniciou a sua intervenção falando da I Guerra Mundial e na consolidação de conquistas coloniais, e da existência de guerras em certas zonas do continente africano. Discorreu sobre a II Guerra Mundial e concluiu que “as duas guerras trouxeram elementos suficientes para que os colonizados pudessem pensar de diversas formas de se livrar da colonização, ora negociando, onde era possível” ou pela via da violência.

Jean-Michel Mabeko Tali é Doutorado em História. É, actualmente, professor titular da cátedra de História de África na Universidade de Howard, em Washington, DC. É membro da subcomissão para o Tomo III do Comité Internacional da UNESCO para a redacção do IX Volume da História Geral de África. E, entre 2009 e 2017, foi membro do Comité Internacional da UNESCO para o Uso Pedagógico da História Geral de África. Autor, entre outras obras, do livro Guerrilhas e Lutas Sociais. O MPLA Perante si Próprio (1960/1977). Ensaio de História Política, publicado, em Março de 2018 pela Mercado de Letras Editores.

Alberto Oliveira Pinto falou do seu país, Angola, numa perspectiva de “apreciar os movimentos de libertação ou independentistas, mas tentando articulá-los com as conjunturas em que, pelo menos desde 1948… acho que em 1948 aparece, pela primeira vez, em Angola um projecto nacionalista” - exceptuando alguns casos e a “imprensa dita liberal” -, com a “famosa frase de Viriato da Cruz “Vamos descobrir Angola””. Para Alberto Oliveira Pinto “Angola sente-se viúva do colonialismo, mas não despiu o luto do colonialismo, e cada dia que passa, cada facto que eu vejo em Angola, eu vejo o colonialismo novamente” acrescentando que “estes últimos 15 anos, desta reconstrução falsa, hipócrita, desta destruição onde o povo continua a viver no musseque, continua a viver mal, mas em contrapartida destrói-se o património de Luanda para construir arranha-céus”, reconhecendo a destruição dos locais de memória da cidade. Concluiu afirmando que “há muito em que pensar relativamente áquilo que continua a ser a luta pela independência de Angola” e é “urgente a descolonização interior”.

Alberto Oliveira Pinto é Doutorado em História de África. Presentemente é Investigador do CEsA - Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina do Instituto Superior de Economia e Gestão e do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre variadíssimas obras é autor do livro História de Angola - Da Pré-História ao Início do Século XXI publicado em 2016 pela Mercado de Letras Editores.

Nascido em Portugal, Nuno Canas Mendes abordou Timor-Leste em duas partes: o contexto em que surge o nacionalismo timorense, relativamente ao contexto histórico e internacional, e a geneologia do movimento nacionalista até chegar ao estado.

É Doutorado em Relações Internacionais e professor associado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e professor convidado do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. É presidente do Instituto do Oriente. Tem trabalhado sobre a questão do nacionalismo, da identidade nacional e da construção do Estado em Timor-Leste. Autor de livros e de diversos artigos sobre o Estado, a segurança e a política externa de Timor-Leste, é co-autor do livro Timor-Leste. Da Guerrilha às Forças de Defesa. Um Transição que Espantou o Mundo, publicado, em Março de 2018, pela Mercado de Letras Editores.

Natural da ilha de Santiago, em Cabo Verde, Aurora Almada e Santos abordou o seu país natal, para quem falar de movimentos de libertação é falar “sobretudo, e principalmente, sobre o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde)”. Outros movimentos e organizações também existiram como a UPICV – União do Povo das Ilhas de Cabo Verde ou a UDC – União Democrática de Cabo Verde. Para Aurora Santos “só podemos entender a questão da independência de Cabo Verde se tivermos em atenção a dimensão internacional do PAIGC, essa luta nos palcos internacionais que permitiram ao movimento legitimar-se para assumir o poder após a independência”.

Aurora Almada e Santos é Doutorada em História Contemporânea, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde se tem dedicado ao estudo da dimensão internacional da descolonização portuguesa. É autora de diversas publicações, designadamente capítulos de livros e artigos em revistas científicas. Tem participado, com a apresentação de comunicações, em encontros científicos nacionais e internacionais. No âmbito das suas funções de investigadora merecem ainda destaque o desempenho de outras actividades como a edição de publicações, organização de conferências, revisão de artigos e execução de projectos de investigação.

A Guiné-Bissau foi abordada por Eduardo Costa Dias que destacou as datas mais significativas dos movimentos de libertação no país: 1953, 1959, 1962, 1963, 1972 e 1973.

Eduardo Costa Dias é Doutorado em Antropologia Social, Investigador do Centro de Estudos Internacionais, Professor no Departamento de Ciência Política  e Políticas Públicas e Director do Doutoramento em Estudos Africanos do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Portugal. Tem desenvolvido trabalhos sobre o Estado, as relações entre os dignitários muçulmanos e o Estado e as formas de transmissão do saber religioso nas sociedades islamizadas da Senegâmbia. Actualmente faz parte do Board of Directors da Mande Studies Association.

Originário de Moçambique, Fernando Jorge Cardoso falou do seu país, destacando que “Moçambique enquanto território, enquanto processo de colonização, enquanto modernização, é um processo muito mais tardio do que todos os países. Efectivamente, o processo de ocupação de Moçambique e de definição do Estado colonial de Moçambique, começa no século XX”. Falou do nascimento da Frelimo, de Marcelino dos Santos, de Samora Machel.
Fernando Jorge Cardoso é Doutorado em Economia e especialista em assuntos africanos, coordena a área de estudos do desenvolvimento no Instituto Marquês de Valle Flôr, é professor associado convidado do ISCTE-IUL e é director-executivo do Clube de Lisboa. Em Moçambique, participou na etapa final do combate contra o colonialismo e o fascismo e na reconstrução nacional nos primeiros 10 anos de independência, tendo sido diretor da Faculdade de Economia da UEM, assessor do Ministro do Plano e director de uma empresa açucareira.

* Texto publicado originalmente a 26-05-2018. Fonte: UCCLA

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