Jean Boustani, responsável de vendas da construtora naval Privinvest, rejeitou na quarta-feira as acusações de suborno a membros do Governo moçambicanos, dizendo que a empresa queria fazer lóbi junto dos decisores moçambicanos, com “bons investimentos” para o “grande futuro” do país.

A corrida às eleições presidenciais ou ao parlamento, uma empresa de extração de rubis, a criação da Autoridade Marítima de Moçambique ou um programa de tratamento de dados “offset” são apenas alguns dos exemplos de “negócios pessoais” em que a Privinvest queria financiar para moçambicanos “de relevo”.

O arguido disse que tais investimentos faziam parte do “orçamento alocado” pelo dono da Privinvest, o bilionário Iskandar Safa, para a “contribuição” no “futuro de Moçambique”, que ascendia a 125 milhões de dólares (7,9 mil milhões de meticais).

Para a empresa Privinvest, as transferências de dinheiro eram como uma moeda com cara e coroa: “bons investimentos” por um lado e “influência” por outro, disse Jean Boustani no tribunal.

Os pagamentos faziam partes de “um orçamento” criado pelo Presidente da empresa, o bilionário Iskandar Safa, para “diferentes atividades, investimentos, construção de relações, o ‘lobbying’, a influência, tudo o que queríamos construir para o grande futuro de Moçambique”, disse o arguido.

Num ‘e-mail’ de Jean Boustani para o diretor financeiro da empresa Privinvest, Najib Allam, datado de 08 de abril de 2014, o arguido expunha uma lista de números programados para “contribuições” a várias figuras moçambicanas.

Téofilo Nhangumele e Bruno Langa, que, segundo o testemunho, tinham trabalhado para a Privinvest para a aprovação do projeto Proindicus junto dos decisores em Moçambique, teriam a receber 8,5 milhões de dólares cada um (535 milhões de meticais), como ‘comissão de vendas’.

‘Chopstick’, alcunha para o ministro das Finanças de Moçambique, Manuel Chang, deveria ter recebido “7” (milhões de dólares), segundo o ‘e-mail’, mas, em tribunal, Jean Boustani disse que era “um orçamento e só parte foi paga”.

O dinheiro serviria para “a campanha para ser membro do parlamento e para abrir uma empresa de consultoria”, disse Boustani.

Isaltina Lucas, que foi vice-ministra das Finanças, tinha a receber três milhões de dólares e “uma parte foi paga”. Segundo Jean Boustani, dizia respeito à empresa gerida pelo irmão para “estabelecer a Autoridade Marítima de Moçambique”, a Maputo Port Development Company.

António Carlos do Rosário, diretor da empresa Ematum e funcionário do serviço de inteligência de Moçambique (SISE) tinha “um orçamento de 15 [milhões] e não foi tudo pago”. Eram para “investimentos no setor imobiliário”, disse Jean Boustani na quarta-feira.

Rosário Mutota ou Cipriano Sisínio Mutota era identificado como “Ros 2”, teria a receber um milhão de dólares (63 milhões de meticais).

Segundo Jean Boustani, era “parceiro de Teófilo Nhangumele na companhia Mulepe, que, inicialmente, iria ser a agente da empresa Privinvest para as relações com Moçambique”.

“’Prof’ era Renato Matusse”, um conselheiro político do antigo Presidente Armando Guebuza, que estaria a investir numa “mina de rubis” e iria receber um milhão de dólares, explicou Boustani.

Renato Matusse “disse que tinha equipamentos relacionados com escavações e outras coisas e perguntou se podíamos participar no negócio que tinha”, explicou Jean Boustani no julgamento.

Eugénio Matlaba, diretor executivo da empresa Proindicus, também estava alistado para “1”, assim como Armando Inroga, identificado como ‘Inro’, antigo ministro da Indústria e Comércio, que teria um programa de tratamento de dados “offset”.

Gregório Leão, antigo diretor dos serviços secretos SISE, estava identificado com “DG” e teria a receber 13 milhões de dólares (819,5 milhões de meticais).

“Nuy” referia-se a Filipe Nyusi, atual Presidente de Moçambique, apontado para receber dois milhões de dólares. No mesmo 'e-mail' entrava quatro milhões de dólares (252 milhões de meticais) para o partido Frelimo, também para apoiar a campanha de Filipe Nyusi para Presidente.

O arguido Jean Boustani disse que tudo estava de acordo com as autorizações de Iskandar Safa, proprietário da empresa Privinvest.

“Nenhuma destas pessoas pediu nada” e os pagamentos não eram uma “troca de favores”, salientou Jean Boustani na quarta-feira.

Os Estados Unidos estão a julgar um processo de corrupção que envolvem uma série de empresários e políticos moçambicanos, envolvidos num empréstimo dois mil milhões de euros a três empresas estatais, que colocaram o país numa situação de incumprimento da dívida pública.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.