"Após o desconforto criado à volta da sua função como assessora do primeiro-ministro, ela entendeu por bem, de forma expressa, abdicar do cargo", afirmou a fonte.

A fonte considerou como "ataques maliciosos" as pressões para a resignação de Maria Isaltina Lucas, defendendo que a visada não é arguida no processo sobre as dívidas ocultas, goza de presunção de inocência e é quadro do Ministério da Economia e Finanças, com grande domínio sobre instrumentos de governação económica.

Maria Isaltina Lucas foi diretora nacional do Tesouro no período em que o Governo moçambicano avalizou, secretamente, entre 2013 e 2014, empréstimos no valor de 2,2 mil milhões de dólares a favor de três empresas estatais ligadas à pesca e segurança marítima, tendo sido depois vice-ministra da Economia e Finanças, de 2016 a 2019.

Aquela responsável assinou pareceres favoráveis à emissão das garantias do Estado para a concessão dos empréstimos.

Os empréstimos são alvos de processos judiciais em Moçambique e nos EUA, por indícios de ocorrência de crimes económicos e envolvem ainda o ex-ministro das Finanças Manuel Chang, detido na África do Sul.

Por outro lado, o nome de Maria Isaltina Lucas consta de uma folha de pagamentos da Privinvest, empresa naval, apresentada por um agente do Departamento Federal de Investigação (FBI, na sigla em inglês), durante o julgamento em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, de Jean Boustani.

Este negociador do estaleiro Privinvest, que era parte interessada no negócio, acabou por ser absolvido, em dezembro, nos EUA, mas diversos indícios acabaram por ser divulgados num processo que continua aberto em Moçambique.

Em março de 2016, Maria Isaltina Lucas foi nomeada vice-ministra da Economia e Finanças, tendo sido exonerada do cargo em fevereiro de 2019, quando se iniciaram as detenções relacionadas com o caso em solo moçambicano.

Maria Isaltina Lucas não é arguida no processo em Maputo, um caso que conta com 20 arguidos, 19 dos quais detidos, mas faz parte da lista de 16 pessoas que o Ministério Público remeteu ao Tribunal Administrativo, pedindo que fossem responsabilizadas financeiramente.

O Fórum de Monitoria do Orçamento (FMO), organização da sociedade civil moçambicana, manifestou-se no início do mês escandalizado com a nomeação de Maria Isaltina Lucas para assessora do primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário.

"A nomeação de uma das figuras-chave na contratação das dívidas ocultas para o cargo de assessora do primeiro-ministro revela, mais uma vez, que o Governo de Filipe Nyusi está envolvido no maior escândalo financeiro de Moçambique e não tem nenhum interesse em ver o assunto esclarecido", referiu em comunicado o FMO.

O assunto veio a público quando Maria Isaltina Lucas acompanhou Carlos Agostinho do Rosário na apresentação do Programa Quinquenal do Governo perante o parlamento.

Na ocasião, António Muchanga, deputado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, criticou no plenário da Assembleia da República a presença de Maria Isaltina Lucas na equipa de assessores do primeiro-ministro, mas sem obter respostas.

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