Cerca de quatro mil ruandeses da diáspora a viver na Europa reúnem-se este sábado (05.10) na cidade de Bona, no oeste alemão, para celebrar a décima edição do Dia do Ruanda e acompanhar a visita do Presidente ruandês, Paul Kagame, que participa do evento na cidade-sede das Nações Unidas na Alemanha.

"Esta é a primeira vez que eu verei um Presidente. Eu tenho 54 anos e nunca cheguei perto de um Presidente", disse Alphonsine Kayinamura à DW. A ruandesa é presidente do Centro Alemão-Africano, com sede em Bona, que busca estabelecer mudanças de perspetivas sobre África na Alemanha.

"Companheiros africanos estão a dizer-me que eu tenho sorte que Kagame vem. Junto com o Presidente do Gana, Kagame é visto como alguém que defende a África. O Presidente é um modelo em termos de políticas ambientais e a autodeterminação de África", diz.

"Estou realmente empolgada por estar na minha comunidade, porque aqui sinto que não temos muitas pessoas do Ruanda", diz a jovem ruandesa Arlette Munyurarembo, de 24 anos, que vive na Alemanha.

Vedaste Musoni, líder da comunidade do Ruanda na Alemanha, afirma que o evento é uma oportunidade para os ruandeses constatarem o que podem fazer para o país a partir da Europa. "O Dia do Ruanda é sobre encontrar a comunidade, o nosso Governo, mas também promover encontros entre empresários que estão no Ruanda e na Europa", sublinha.

O valor da diáspora

Segundo o Banco Central do Ruanda, cidadãos a viver no exterior já enviaram mais de 165 milhões de euros a familiares que estão no país-natal entre 2016 e 2017 por meio de remessas e investimentos.

Um estudo da Organização Internacional para as Migrações (OIM) mostra que os ruandeses da diáspora estão também intimamente ligados ao desenvolvimento do setor imobiliário no Ruanda e com os negócios domésticos. Desde o primeiro Dia do Ruanda, em 2010, em Bruxelas, o país registou um aumento constante nas remessas.

"O que esperamos do Presidente é que nos diga o estado atual do Ruanda, como a economia está a andar e quais são os planos para os próximos cinco, dez anos", diz Musoni.

Kagame é visto como um parceiro político, económico e de cooperação internacional confiável. O país está a se preparar para receber até 500 africanos presos nos centros de detenção de migrantes da Líbia. A montadora alemã Volkswagen desenvolveu uma linha de montagem no Ruanda e está a testar no país um serviço de táxi semelhante ao Uber. A capital Kigali é muito limpa. O país tem uma boa reputação por causa dos seus centros de TI, startups e pela proibição do uso de sacos plásticos, que já dura uma década.

Entretanto, o Ruanda ainda está a enfrentar o legado do genocídio de 1994. O Governo de Kagame é acusado de oprimir a mídia dentro e fora do país e até de matar membros da oposição. Em abril passado, a Alemanha convocou o seu embaixador em Kigali depois que o Governo o acusou de comentários "abusivos" sobre Kagame e o país.

É difícil falar com os ruandeses que vivem no exterior sobre tais assuntos, especialmente durante uma visita presidencial. "Só posso aconselhar as pessoas a formarem suas próprias opiniões indo ao Ruanda ou até ao Dia do Ruanda para ver os desenvolvimentos no país", sublinha Musoni.

Críticas a Kagame

Embora seja uma chance de ver e ouvir Kagame, nem todos estão convencidos de que a agenda do evento é puramente social e económica.

"Os eventos do Dia de Ruanda têm um forte componente político, porque são organizados para reunir apoiadores na Europa e no norte da África. O evento é usado para identificar quem é apoiador do Governo e quem não é", diz o ativista de direitos humanos ruandês Rene Mugenzi, que vive no Reino Unido e já precisou de proteção especial devido a ameaças do Governo.

Mugenzi acredita que o evento serve para o Governo em Kigali identificar quem pode ser recrutado para o partido no poder, quem está bem conectado no país em que vive ou é ativo nas mídias sociais e talvez possa falar bem do Presidente a seus amigos e seguidores.

"As embaixadas e o Governo têm a sua rede de espiões ou informantes que coletam informações não apenas sobre outros ruandeses, mas também sobre os que estão na diáspora. Eles tentam identificar quem não apoia o Governo, especialmente jornalistas e ativistas de direitos humanos, e informam como vivem, como podem ser abordados, como podem mudar de opinião e como podem ser influenciados", afirma o ativista ao mencionar o assassinato de pelo menos quatro opositores apenas este ano.

por:content_author: Sella Oneko, kg

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