Resultados oficiais divulgados no domingo dão a vitória da oposição em nove autarquias, contra 44 da Frelimo.

Por outro lado, mesmo onde não ganhou, a oposição junta estará em maioria em várias assembleias municipais.

"Claramente, as coisas mudaram significativamente e a Frelimo vai ter de partilhar o poder autárquico com mais actores políticos", declarou à Lusa Salvador Forquilha, diretor-executivo do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), uma instituição de pesquisa moçambicana.

Salvador Forquilha defende que os resultados das eleições autárquicas de quarta-feira criaram uma situação nova, que vai obrigar a Frelimo, a Renamo e o MDM a mostrar maturidade política.

"Uma das grandes virtudes é a possibilidade de partilha do poder, a possibilidade de mais actores políticos poderem participar no processo de construção das instituições locais", declarou.

O académico considera ainda que a votação do dia 10 foi um sufrágio à governação da Frelimo e o eleitorado manifestou descontentamento em relação à crise económica e ao escândalo das dívidas ocultas.

Salvador Forquilha desdramatizou os receios de que a maioria de que a oposição vai dispor nalgumas assembleias possa tornar ingovernáveis certas zonas, defendendo que essa postura pode ser um erro estratégico para a Renamo e para o MDM.

"Não acredito que seja vantajoso o bloqueio como estratégia, não acredito que possa ser uma estratégia a seguir pela Renamo e pelo MDM", afirmou.

Fernando Lima, presidente do grupo de comunicação social Mediacoop, afirmou que o aumento do número de municípios controlados pela oposição vai conferir maior vitalidade à democracia moçambicana e permitir a emergência de novas ideias no processo de governação.

"É bom que mais partidos entrem na governação do país, porque faz parte da essência da democracia e do pluralismo político", afirmou Fernando Lima.

A diminuição do poder da Frelimo na governação autárquica aumenta as alternativas na solução dos problemas locais e a participação de segmentos do eleitorado que se podiam sentir marginalizadas, acrescentou.

Fernando Lima também defende que as eleições autárquicas tiveram um alcance nacional, pois expressam o descontentamento do eleitorado em relação ao poder central dirigido pela Frelimo.

Por seu turno, Juma Aiuba, analista político em Nampula, a terceira principal cidade do país, disse que a vitória da Renamo em vários municípios da província mostra o desejo do eleitorado pela mudança.

"O eleitorado moçambicano dá sinais fortes de que está preparado para a mudança e há um efeito de contágio nessa manifestação", considera Juma Aiuba.

Aiuba assinala que a estabilidade governativa que se seguiu à vitória da Renamo na eleição intercalar no município de Nampula (no início deste ano) inspirou o eleitorado de outros municípios da província a apostar na oposição nas eleições de quarta-feira, em detrimento da Frelimo.