Os números são a base para os negócios e influenciam as previsões. No entanto, em muitos países africanos, a recolha de dados fiáveis continua a ser um desafio.

Em África, a maioria das atividades económicas estão relacionadas ou com a agricultura ou com pequenas e médias empresas do setor informal - atividades que não são tidas em conta nas estatísticas oficiais.

Nos países mais pobres, a situação agrava-se, pois, como explica em entrevista à DW Morten Jerven, professor de economia da Universidade de Lund, na Noruega, "há uma combinação entre o facto de que é difícil recolher os dados - por haver pouco dinheiro - e o facto de que a maioria das pequenas empresas, pequenos agricultores, vendedores de cigarros, sapateiros e assim por diante não terem registos [da sua atividade comercial]".

Em áreas onde há guerra civil ou agitação política, é igualmente difícil obter dados confiáveis, acrescenta o professor norueguês.

Mo Ibrahim, o conhecido empresário milionário sudanês-britânico, também vê a falta de dados como um desafio central para África. Num recente relatório sobre o continente publicado pela sua fundação, Ibrahim defende a criação de autoridades estatísticas que melhorem a recolha de dados.

"Apenas oito dos 54 países africanos têm registos de nascimento oficiais", afirma o empresário, frisando que a recolha de dados ajuda a determinar o que necessita ser feito nos diferentes países.

Financiamento externo

A falta de números sobre determinadas realidades tem influência em vários domínios. E o economista Morten Jerven chama a atenção para a sua influência também na atribuição do financiamento externo, e consequentemente, no desenvolvimento dos países. É que os países doadores e as instituições financeiras, como o Banco Mundial, associam, muitas vezes, o financiamento a metas específicas a serem alcançadas. Ou seja, diz, "muita da intervenção dos doadores está dependente, e é condicionada, pelo cumprimento de certos critérios. E são esses critérios, quer sejam cumpridos ou não, que determinam se os dados mostram sucesso ou fracasso".

Problema universal

No ano passado, o jornal londrino "Financial Times" acusou o Ruanda de manipular as suas estatísticas de pobreza. Também o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) denunciou que este mesmo Governo havia falsficado o número de refugiados do Sudão do Sul, em 2016, para receber mais assistência financeira.

Apesar destes exemplos, garantem os especialistas, a falta de dados e manipulação de informação não é apenas um problema africano. Segundo Yannick Lefang, fundador da empresa de dados Kasi Insight, com sede em Nairobi, vários países da União Europeia também se deparam com o mesmo desafio. "É um problema global, em vários graus", garante Lefang, acrescentando, no entanto, que "é mais crítico para um continente como África, porque é um continente emergente".

O especialista não tem dúvidas de que a informação proveniente desta recolha de dados é crucial para o sucesso económico e a transparência de um país e que ajuda, nomeadamente, no combate à corrupção. "Quando produzimos estatísticas não confiáveis, estamos apenas a prejudicar-nos a nós próprios", disse.

Por isso, adverte o especialista, é necessário que os decisores políticos estejam conscientes disso e que haja mais investimento em recursos que permitam a realização de "estatísticas" fiáveis.

"As autoridades estatísticas que existem nos países africanos raramente têm financiamento ou recursos humanos suficientes que satisfaçam a procura global de informação", nota.

Autor: Martina Schwikowski

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