“Nasci no dia 4 de Março de 1971, em Maputo, mas fui muito pequena para Nacala, cidade para onde o meu pai, funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM), foi transferido. 

A minha infância em Nacala foi muito bonita. Lembro-me das praias lindíssimas que tínhamos lá: as Chocas, Cabaceira, Fernão Veloso… A Ilha de Moçambique era uma segunda casa. Tínhamos uma liberdade total. Sempre gostei muito das brincadeiras de rapazes. Aliás, eu era uma maria-rapaz. Jogava à bola, trepava às árvores, deslizava em carrinhos de rolamentos, conduzia um pneu empurrado por dois paus cruzados. No meu grupo só existiam praticamente rapazes. Andava todo o dia de calções, mesmo quando ia para o mato. Tínhamos brincadeiras muito diferentes das que se tinham aqui em Maputo. Lembro-me que a minha vinda para Maputo, em 1979, foi um choque e a adaptação levou-me muito tempo porque quando saí de Nacala deixei tudo para trás. O meu pai era uma pessoa muito dinâmica. Ele é que supervisionava o clube de desportos dos CFM, onde havia um ringue em que se jogava hóquei e futebol de salão. Ao fim de semana o meu pai passava filmes. Acabada a sessão, íamos todos comer espetos, toda a gente adorava.     

Em Nacala vivíamos em casas dos CFM e todos nós tínhamos hortas, uma mini-machamba, era muito saudável. Aqui não senti qualquer tipo de carência. Depois, quando vim para Maputo, aí sim, passei as dificuldades pelas quais todas as pessoas passaram. Muitas vezes digo ao meu filho: - Vocês deviam ter vivido aquele tempo para saberem o que era o espírito de solidariedade, de união. Não havia qualquer divisão de raça ou classe social. As pessoas eram unidas. Marcava-se o lugar na bicha com uma pedra e ninguém passava à frente, todos respeitavam. Íamos para a escola, votávamos e o lugar na bicha estava à nossa espera. Toda a gente respeitava isso. Quando aqui cheguei não gostei nada de Maputo. Lembro-me que a minha falecida avó disse-me: - Vocês têm de mudar os vossos hábitos de vestir. Têm que andar de blusa ou vestido, bem diferente de Nacala, onde só andava de calções.

Cristóvão Araújo