Cerca de 24 horas depois de terem atacado Mocímboa da Praia, os insurgentes tomaram de assalto a vila de Quissanga, aparentemente sem grandes dificuldades. Nas redes sociais, fotos e vídeos mostram os atacantes a posar defronte do comando da Polícia da República de Moçambique local com a sua bandeira; a casa do administrador local foi igualmente atacada - instituição e símbolos do Estado já sem os legítimos representantes.

A violência contra a população e a humilhação do Estado são um problema nacional, que alarma os moçambicanos. É ou não dever da sociedade moçambicana ativar algum mecanismo de pressão sobre o Governo, para que este tome medidas ajustadas ao poderio dos insurgentes?

"Penso que, na escolha entre a alternativa islamista violenta e o Governo moçambicano, a esmagadora maioria na sociedade moçambicana ainda apoia o Governo. O Governo deveria saber mobilizar este apoio", comenta Aslan Orre, analista político especializado em boa governação. "Mas, para mobilizar apoio e motivar a população, tem que começar por mostrar que merece esse apoio. Já tem que mostrar sinais sérios de acabar com roubos e com corrupção, tem que fazer algo contra a desigualdade e injustiça", acrescenta.

Oportunidade para o Governo

Os ataques armados afetam "toda a população moçambicana, não só a de Cabo Delgado", recorda Orre. "Se o Governo da FRELIMO lidar bem com esta crise, pode ser-lhe dada uma oportunidade para revigorar o apoio que tem perdido ao longo dos últimos anos."

No entanto, o analista diz que há fragilidades que não jogam a favor do Executivo neste momento: "A crise do coronavírus é o maior desafio do Governo da FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique], mas pode também pode ser uma grande oportunidade".

"O Governo deve estar em apuros, com crises em todo o lado. Certamente, os grupos islamistas armados aproveitam-se da crise mundial que se instalou com o coronavírus", comenta Orre. A estas dificuldades acrescem a "crise de confiança criada pelo envolvimento do Governo no escândalo das dívidas ocultas, além da crise de legitimidade criada pela péssima qualidade das eleições gerais em outubro passado".

Apoio direto da sociedade ao Exército?

Numa tentativa de sobrevivência, a população foge a sete pés dos ataques dos insurgentes, elevando o número de deslocados internos, com todas as consequências que dai advêm. Estima-se que a violência na província de Cabo Delgado já tenha levado à fuga de mais de 60 mil pessoas.

Vale tudo, inclusive atravessar a pé para o arquipélago das Quirimbas, como aconteceu depois do ataque desta quarta-feira (25.03) a Quissanga. Mas quem está a salvo pode, sim, dar o seu contributo, defende o sociólogo Elísio Macamo.

"A nossa sociedade pode organizar-se através dos partidos da oposição, mas não: a RENAMO [Resistência Nacional Moçambicana] está com o 'rabo preso', porque está numa situação idêntica com os seus próprios rebeldes", comenta.

No entanto, para o analista, um partido como o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) poderia "exigir no Parlamento contas ao Governo sobre o que está a ser feito, sobre os meios que estão a ser disponibilizados às nossas Forças de Defesa e Segurança [FDS] para cumprirem a sua missão de proteger o país e a soberania nacional".

Esta quarta-feira, a oposição moçambicana insistiu que é necessário decretar o estado de emergência nas regiões dos ataques.

A sociedade pode até ir mais longe, segundo o académico Elísio Macamo, que não descarta um contributo material: "Nós, como sociedade civil, podemos também oferecer o nosso apoio. Um grande problema é o material, a falta de meios. Tenho a certeza que deve haver grande problemas logísticos no abastecimento das nossas tropas em termos de meios. Não acharia estranho, por exemplo, que se mobilizasse a sociedade para facultar víveres e mantimentos aos nossos soldados. Afinal, estão a fazer um trabalho muito importante para o nosso país. Há várias coisas que podem ser feitas."

Aplaudir o agressor por gostar dele ou por ter medo?

Mas há também um paradoxo: o relato de que parte da população teria aplaudido as investidas dos insurgentes em Mocímboa da Praia. O gesto confirmaria o descontentamento da população resultante da exclusão social, tese defendida por alguns investigadores?

O analista político Aslak Orre afirma que essa "pode ser uma parte da história, mas não é toda a história".

"Quem aplaude o agressor pode gostar dele ou pode ter medo dele", comenta. "Quem sabe o que cada um calcula ser a melhor tática para se proteger quando depara com um grupo de islamistas fortemente armados, que de repente aparecem na rua?" E o especialista sugere: "Agora é tempo de tentarmos entender o conflito sem saltarmos para conclusões convenientes de algum preconceito.

"Aqui há elementos de intervenção regional e internacional. Há ligações, há interesses muito além de Moçambique. Também há exclusão e injustiças - muito pelas atividades da indústria extrativa - que afetam a população local. Mas disto há muito também em outros lados de Moçambique, sem haver esta violência".

Empresas internacionais que dominam a segurança petrolífera mundial tentam, com muitas dificuldades, conseguir um contrato na região visada pela insurgência.

Punição às FDS?

Já Elísio Macamo aventa a possibilidade do apoio popular aos insurgentes ser uma espécie de punição a quem os devia proteger.

"Não me surpreende que lá em Cabo Delgado possa haver pessoas a aplaudir as ações dos insurgentes, não porque os apoiem mas porque simplesmente sentem uma certa distância em relação àquelas forcas que deveriam estar lá para garantir a sua proteção. Os refugiados ja se queixaram várias vezes, há um problema de disciplina nas nossas FDS e, sobretudo, uma falta de respeito para com as pessoas." O académico moçambicano olha com relutância para a tese da exclusão social.

por: Nádia Issufo

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