"Calamidade", nome dado a donativos de roupa usada, tornou-se um negócio de luxo que alimenta os mercados de Moçambique e Zimbabué, neste último através de contrabando.

Centenas de lojas para venda de fardos de roupa usada, que nos anos 1980 e 1990 era oferecida às vítimas moçambicanas da guerra ou seca por organizações humanitárias, foram abertas em Chimoio, a capital de Manica, centro de Moçambique.

Entre calças e blusas estendidas no poeirento chão do mercado-feira, um dos mais movimentados de Chimoio, Florindo Rui publicita a "calamidade" com "preços amigáveis" e descontos à "altura do cliente" e desvaloriza a roupa nova numa minúscula banca ao lado.

"Agora é o negócio que está a ‘bater’. Nós compramos às pessoas que abrem os fardos nos mercados e revendemos a peça no pátio ou de forma ambulante nas ruas da cidade", disse à Lusa Florindo Rui, adiantando ter clientes fixos, "incluindo secretárias e diretores de empresas".

Diariamente, mais de dez camiões contentores, que levam os fardos de roupa do porto da Beira, no Oceano Índico, abastecem os armazéns das lojas de Chimoio, a maioria geridos por cidadãos estrangeiros, sobretudo de origem paquistanesa.

A roupa é depois vendida aos comerciantes, um negócio chorudo que está a atrair zimbabueanos.

Um “fardo búfalo”, com 500 quilogramas, chega a custar 40 mil meticais (mil euros), um “fardo infantil” pode ir até aos 6.500 meticais (162 euros) e um “mix económico”, uma mistura de roupa infantil e para adultos, vende-se a 2.500 meticais (62,5 euros), mas estes preços têm vindo a subir de semana para semana.

"Por vezes jogamos com a sorte na compra. Quanto mais roupa aproveitada o fardo tiver, mais lucro tens na revenda, que pode triplicar", explicou à Lusa Mónica Mazarura, moradora de Bindura (Zimbabué), que relaciona o sucesso do negócio com o baixo poder de compra dos dois povos.

"Com o que as pessoas ganham como salário só dá para recorrer a esta roupa, que não é de toda má", disse a zimbabueana Tchipo Chipadze, enquanto veste uma jaqueta de etiqueta comprada na Inglaterra, que equipara o preço da loja ao de um fardo económico.

"Uma calça da loja pode-me custar o mesmo que cinco ou seis calças compradas na “Calamidade”, com pano resistente. Além que as peças da “Calamidade” são exclusivas, talvez por serem do primeiro mundo", referiu Patrício Jorge, um morador de Chimoio, entre centenas de bancas com roupa pendurada no mercado “38 milímetros”.

Para o Zimbabué, contou Tchipo Chipadze, os fardos são despachados em embalagens de saco menores e transportados em semi-coletivos de passageiros, e depois contrabandeados pelas montanhas da fronteira por grupos de jovens.

Dados da Polícia em Manica indicam que pelo menos sete pessoas são detidas por dia na fronteira de Machipanda, a principal entre Moçambique e o Zimbabué, a maioria a contrabandear fardos de roupa usada.

As estatísticas da Autoridade Tributária (AT) de Moçambique, em Manica, colocam o fardo de roupa usada no topo da lista de produtos de contrabando doméstico, que chega a lesar o estado em milhões de meticais de direitos aduaneiros por ano.

Entre os comerciantes grossistas abordados pela Lusa, ninguém revela a origem da roupa, mas a maioria é recolhida por organizações, depois doada e supostamente destinava-se a ser distribuída gratuitamente por pessoas pobres de vários países do continente africano.

Lusa

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.