Abdul Rashid Ismail, presidente da direção da CIMO, uma organização sócio-religiosa sediada na Beira (centro), mas com atividade em todo o território nacional, garante que as madrassas (escolas corânicas) privilegiam a educação e o ensino de valores morais e sociais e não estão ligadas a radicais islâmicos.

“Nós (CIMO) temos controlo total sobre os professores das madrassas. Os nossos professores não são formados no estrangeiro, todos são formados em Moçambique. Se há pessoas que te esses tipos de comportamento não estão ligados a nós de forma alguma”, vincou o líder da CIMO.

Para Abdul Rashid Ismail, “as pessoas que têm ideais radicais, extremistas e fundamentalistas” são pessoas que estudaram maioritariamente na Arábia Saudita e aprenderam “o fanatismo, o wahabismo [movimento islâmico sunita ultraconservador]”.

O responsável da CIMO sustenta que os ataques tiveram “um impacto muto negativo” para a comunidade e destaca que os muçulmanos do Norte, que “são pela paz e não querem problemas” mas são afetados pelas acusações de terrorismo.

“Em particular, em Cabo Delgado nós fomos proibidos até de ensinar as crianças por considerarem que somos estrangeiros. Os policias, especialmente, não deixavam entrar dentro das esquadras com cofió (barrete muculmano), discriminavam-nos”, lamentou, criticando as autoridades por tentarem as atividades da CIMO que são autorizadas pelo governo.

O líder religioso sugeriu que “há interesses externos” ligados aos ataques que acontecem “num local onde há riqueza”, entre as quais minerais e gás natural.

“As pessoas que fazem isso em nome do islamismo têm segundas intenções ou foram mandadas por alguém para tirarem a população de lá e ocuparem esse espaço. [Querem] criar instabilidade e pânico na população. Queimam as casas, decapitam as pessoas, dizem que são muçulmanos, mas não são os muçulmanos que ensinam essas barbaridades”, criticou, sublinhando que “as madrassas não ensinam essas coisas”.

Abdul Rashid Ismail defendeu também o trabalho da Comunidade Islâmica, sobretudo junto das crianças desfavorecidas. “estamos a levar educação onde não há escolas nem religiosas, nem seculares”.

Segundo, nas madrassas (escola corânica) além de ensinamentos corânicos e do alfabeto árabe, transmitem-se valores sociais e morais que promovam uma “boa conduta, para as crianças não se perderem na bandidagem e na droga”.

O responsável da CIMO adiantou que mais de 5.000 alunos frequentem as madrassas em todo o país.

Entre os estabelecimentos de ensino ligados à CIMO contam-se escolas primárias (a da Beira, tem capacidade para 750 alunos) e estão em fase final de construção uma escola secundária, também na Beira, um orfanato com escola, posto de saúde e pavilhão desportivo em Nampula e outra escola primária na Ilha de Moçambique.

Abdul Rashid Ismail estima que existam cerca de 65% de praticantes da religião muçulmana em Moçambique, mas a percentagem sobe para 80% na Ilha de Moçambique e 90% em Niassa e chega a ser superior noutras localidades no norte do Moçambique.

“A educação está praticamente esquecida nesses ambientes. Fora das cidades, no mato não há nem uma, essas crianças estão carentes de educação e é aí que queremos chegar. A nossa aposta é na educação e não só religiosa”, frisou.

A CIMO foi fundada em 2004 e apresenta-se como “uma instituição de caráter social, humanitária e religiosa, assente na filosofia do Isslam e na crença de “Ahlus Sunnah Wal Jama’ah” (islão sunita) cujo objetivo é “praticar ações de natureza humanitária e de filantropia, sem distinção de raça, credo, sexo ou classe social.