Diante de dificuldades para organizar uma viagem a Nova York, onde seria homenageado nesta semana mas enfrentava uma série de protestos contra sua ida, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) mudou seu roteiro e agora visitará a cidade de Dallas, no Estado do Texas.

A alteração busca garantir que a viagem ocorra num território menos hostil – o Texas é considerado um dos principais bastiões do conservadorismo político nos EUA.

É também um dos maiores redutos do Partido Republicano, o mesmo do presidente americano, Donald Trump, – embora mudanças demográficas ameacem pôr fim ao domínio conservador.

Bolsonaro deve chegar a Dallas na manhã desta quarta-feira, 15, e ficará na cidade por dois dias.

Na própria quarta, segundo o Ministério das Relações Exteriores, está prevista uma reunião entre o brasileiro e o ex-presidente americano George W. Bush (2001-2009).

Na quinta, Bolsonaro será homenageado em um almoço pelo World Affairs Council de Dallas-Fort Worth e receberá o prêmio “Personalidade do Ano” da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

Ele deve voltar ao Brasil no fim do dia.

Problemas em Nova York

Inicialmente, a entrega do prêmio a Bolsonaro estava agendada para esta terça-feira no Museu Americano de História Natural, em Nova York.

Porém, a pressão de ativistas e do próprio prefeito da cidade, Bill de Blasio, fez com que a instituição desistisse de sediar o evento.

O Museu Americano de História Natural
O Museu Americano de História Natural desistiu de receber homenagem a Bolsonaro créditos: Getty Images

A Câmara de Comércio, então, transferiu a premiação para o hotel Marriot Maquis, até que três empresas – o jornal Financial Times, a consultoria Bain & Company e a empresa aérea Delta – anunciaram que não mais patrocinariam a cerimônia.

Bolsonaro cancelou a ida a Nova York e passou a estudar alternativas.

Membro do Partido Democrata, que faz oposição a Trump, e cotado como um dos potenciais candidatos à Presidência em 2020, o prefeito De Blasio disse que Bolsonaro era um “ser humano muito perigoso” e criticou a postura do presidente quanto à conservação ambiental e ao direitos LGBT.

“Se eu não posso ser bem recebido em Nova York, seremos no Texas”, disse Bolsonaro ao anunciar os novos planos.

Os porquês do Texas

Ativistas brasileiros e americanos contrários a Bolsonaro dizem que o brasileiro também enfrentará protestos no novo destino.

Mas a dimensão dos atos deve ser menor.

Questionado sobre o visitante pelo jornal O Estado de S. Paulo, o prefeito de Dallas, Mike Rawlings, disse “discordar fortemente de algumas das posições” de Bolsonaro, sem detalhar quais.

Ele afirmou, porém, que não faria campanha contra a vinda do presidente.

“Eu tenho um grande respeito pelo povo brasileiro e não vou me envolver em uma disputa política pública com nenhum líder democraticamente eleito”, disse Rawlings.

Assim como De Blasio, ele é membro do Partido Democrata.

Na cidade que Rawlings governa, Dallas, a candidata democrata Hillary Clinton obteve 60,8% dos votos na eleição para a Casa Branca em 2016, contra 34,6% de Trump.

Hillary também ganhou nas outras grandes cidades do Texas (Houston, Austin e San Antonio) e em quase todos os condados texanos que ficam na fronteira com o México, onde boa parte da população tem ascendência mexicana.

Na contagem total no Estado, contudo, Trump ganhou com 52,2% dos votos, contra 43,2% de Hillary.

Mapa mostra sul dos EUA, com Texas destacado
Entre os Estados americanos, o Texas está em segundo lugar em maior território e população créditos: Getty Images

Cultura pró-armas

Segundo maior Estado americano em território, atrás do Alaska, e dono da segunda maior população, atrás da Califórnia, o Texas era controlado pela Espanha até 1821.

Com a independência do México naquele ano, o Texas se tornou parte do território mexicano – posição de que desfrutou até 1836, quando virou uma República independente.

Nove anos depois, o território foi finalmente incorporado pelos Estados Unidos.

Ao longo de sua história, o Texas se firmou como um dos principais redutos da uma cultura rural americana branca e conservadora, na qual há um forte movimento pró-armas e se valorizam tradições como rodeios e a música country.

Esses pontos têm tornado o Estado alvo de crescente interesse entre brasileiros conservadores, muitos dos quais ligados ao agronegócio.

Em 2017, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, citou em um vídeo no YouTube uma viagem que fez ao Texas, quando disse ter caçado javalis – animais considerados uma praga nos EUA.

Em outra frente, a família Bolsonaro e membros do atual governo vêm se aproximando de políticos texanos proeminentes.

Em novembro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), também filho do presidente, e Filipe Martins – posteriormente nomeado assessor internacional da Presidência – se reuniram nos EUA com o senador Ted Cruz, um dos ícones do Partido Republicano.

Ao divulgar o encontro, Eduardo escreveu no Twitter que Cruz estava comprometido com a “internet livre, o direito a portar armas e liberdades individuais”.

Bolsonaro também tem tentado se acercar do ex-presidente George W. Bush – segundo o brasileiro, a viagem para o Texas foi acertada com o ex-mandatário americano.

Bush integra uma das principais dinastias políticas dos EUA: seu pai, George H. W. Bush, morto em 2018, também presidiu os EUA, e seu irmão Jeb foi governador da Flórida.

George W Bush
Um dos destaques da agenda de Bolsonaro nos EUA é um encontro com o ex-presidente americano George W. Bush (2001-2009) créditos: Alex Wong/Getty Images

O domínio conservador no Texas, porém, corre riscos à medida que a população do Estado se transforma.

A margem de vitória de Trump em relação a Hillary no Estado foi de nove pontos percentuais, bem menos que os 16 pontos que o republicano Mitt Romney teve de vantagem sobre o democrata Barack Obama em 2012.

Em dezembro, o jornal Washington Post publicou uma análise mostrando que eleitores jovens e latinos estavam fortalecendo a esquerda no Texas.

Nos EUA, latinos e membros de outras minorias étnicas tendem historicamente a votar no Partido Democrata.

Em 2000, segundo o Texas Demographic Center, brancos respondiam por 53% da população do Texas. Em 2017, estimava-se que o percentual houvesse caído para 42%.

A transformação ajuda a explicar um dos dados mais surpreendentes da última eleição para o Congresso dos EUA, em novembro de 2018.

No Texas, o senador republicano Ted Cruz concorria à reeleição, desafiado pelo democrata Beto O’Rourke.

Cruz se elegeu, mas teve só 2,7 pontos percentuais de vantagem sobre o rival – resultado considerado impensável num passado não tão remoto.


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Escrito por: João Fellet - Enviado da BBC News Brasil a Dallas (EUA)

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