A vitalidade da democracia africana dependerá do reconhecimento das legitimidades que coexistem nas sociedades do continente, principalmente da inclusão do poder tradicional nas instâncias de decisão, defendeu em Maputo o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos.

Boaventura de Sousa Santos ressalvou a necessidade de África ter em conta a sua interculturalidade na construção do processo democrático, durante uma palestra na quarta-feira dedicada ao tema "Democratizar a democracia: A relação com os meios de comunicação social".

Para o académico e pesquisador português, o continente desperdiça um importante capital de participação democrática que pode ser oferecido pelas instâncias de poder tradicional ou comunitário, ao manter a subalternidade da esfera de poder local em relação às legitimidades revolucionária e de democracia liberal.

"Há um receio em reconhecer as diversas legitimidades que coabitam a realidade social e política africana. Se calhar, África deve ter em conta as três legitimidades que facilmente saltam à vista de quem está atento a este fenómeno", enfatizou Boaventura Sousa Santos.

O desaproveitamento da "energia gerada pela legitimidade tradicional em África", insistiu o sociólogo, deriva do facto de o mesmo estar na base da pirâmide da hierarquia do poder, abaixo da legitimidade revolucionária e da chamada sociedade civil.

"Temos na Europa o poder tradicional, como em Inglaterra, com a Rainha Isabel II, mas esse poder tem uma enorme visibilidade e ocupa um lugar de relevo na hierarquia do Estado", comparou o pesquisador.

Para Boaventura de Sousa Santos, a democracia liberal perdeu virtuosidade, uma vez que os estados são agora dominados pelo capital e viram o seu papel de redistribuição da riqueza e de prestador de serviços sociais neutralizado.

"Os estados confrontam-se em grande medida com uma realidade em que a sua democracia está suspensa. As grandes decisões não são tomadas por dirigentes eleitos, mas por funcionários de determinadas empresas", realçou Boaventura Sousa Santos.

Ao constitucionalismo dos estados, assinalou o sociólogo, sobrepõe-se agora o constitucionalismo das multinacionais, que ditam as regras de funcionamento dos governos, numa lógica compatível à busca de lucro.

@Lusa

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