O analista da BMI Research para Moçambique considerou que o Governo devia ter dado prioridade no pagamento aos detentores de dívida pública e acha que há "motivações políticas" para não afectar os bancos VTB e Credit Suisse.

"Faria mais sentido o Governo dizer que quem tem 'eurobonds' já teve uma reestruturação em 2016 e portanto devia focar-se em pagar a estes e avançar para um 'default' em quem emprestou às empresas públicas através do VTB e Credit Suisse, e o facto de não o terem feito sugere que deve haver motivações políticas em manter os dois bancos felizes", disse David Earnshaw.

Em entrevista à Lusa em Londres, o analista que segue a economia moçambicana criticou a opção do Governo de Moçambique de tratar todos os credores da mesma maneira e vincou que os que têm títulos de dívida pública, emitidos em Abril do ano passado, são os mesmos que já tinham obrigações da Empresa Moçambicana de Atum.

Pelo contrário, os restantes credores são os que emprestaram 1,4 mil milhões de dólares às empresas públicas Mozambique Asset Management e Proindicus, com garantias do Estado, num negócio intermediado pelo banco russo VTB e pelo suíço Credit Suisse.

"Diferenciar os credores seria olhado de forma mais favorável pelos investidores e pelo próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), que já disse que não voltaria a dar ajuda financeira até à reestruturação dessas operações e, nesse aspecto, Moçambique falhou ‘golos de baliza aberta’ ao não dar prioridade aos detentores de dívida pública face a quem emprestou esta dívida escondida", disse Earnshaw.

Neste sentido, continuou, "há agora um risco maior de as negociações não darem em nada e chegar-se ao mesmo ponto a que chegou a Argentina, em que os credores e o Governo viraram as costas e foram-se embora sem um acordo".

Para o analista, este cenário não seria tão negativo como se poderia pensar, porque "apesar do 'default', as empresas privadas continuam a investir em infra-estruturas como a construção de estradas ou projectos em parceria público-privada, incorporando no preço a falta de credibilidade financeira do Governo".

A consequência de não haver acordo com os credores e com o FMI será, essencialmente, um abrandamento no crescimento económico devido à dificuldade em honrar os compromissos nos acordos de megaprojectos que dependem parcialmente de investimento do Estado.

"A decisão da ENI no princípio de Junho é especial por duas razões, sendo que a primeira é que o Governo tem um papel diminuto no projecto, ou seja, o estado das finanças públicas é pouco importante na determinação do falhanço ou do sucesso do projecto", disse o analista.

A outra razão, continuou, é que o projecto é feito fora do território terrestre moçambicano: "a plataforma foi construída na Coreia do Sul e vai flutuar até às águas de Moçambique, por isso, mesmo que o país esteja cheio de problemas, nunca têm de tocar no terreno nem experimentar a turbulência que pode estar ao virar da esquina", concluiu.

É, aliás, por isto, que a ENI andou mais depressa que a Anadarko na Decisão Final de Investimento, disse Earnshaw, vincando que o projecto da petrolífera norte-americana está baseado no continente, e obriga a "estradas e portos, onde o Governo tem um papel maior, e é aí que se poderão ver atrasos no investimento estrangeiro".

Lusa