Afonso Dhlakama, líder histórico da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), falecido no ano passado, foi candidato à Presidência da República em todas as cinco eleições presidenciais realizadas até à data, perdendo em todas, e sem reconhecer a derrota em nenhuma.

Salvador Forquilha, diretor do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), uma entidade de pesquisa independente de Moçambique, considerou que a ausência de Dhlakama “marca diferença” na capacidade de mobilização do eleitorado por parte da Renamo, dado o carisma do falecido político, mas não poderá implicar a perda de “lealdade” da base social do principal partido da oposição.

"A ausência do senhor Dhlakama tem um impacto significativo no funcionamento da própria Renamo, sabemos disso, através das desavenças internas, na medida em que conseguia manter o equilíbrio entre a ala militarizada do partido e a ala mais política", referiu Salvador Forquilha.

Nesse aspeto, prosseguiu, a atual liderança do principal partido da oposição sente dificuldades.

Entretanto, a morte de Afonso Dhlakama e as tensões na Renamo não vão alienar o eleitorado que tradicionalmente votou neste partido, porque é movido pela frustração em relação aos 44 anos de governação da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder.

"Penso que a Renamo tem um eleitorado, que não chamaria cativo, mas, de alguma forma, muito fiel, em que havendo ou não uma mudança a nível da liderança, esse eleitorado não vai mudar significativamente o sentido do seu voto", declarou.

O setor do eleitorado que normalmente vota num determinado partido em Moçambique não escolhe manifesto ou programa, direciona o seu voto em função da fidelidade política.

Sérgio Chichava, investigador do IESE e docente universitário, diz que Ossufo Momade está a conseguir juntar, na sua campanha eleitoral, multidões que diluem a ideia de que a Renamo andava a "reboque" de Afonso Dhlakama.

"Eu penso que a própria Renamo está surpreendida com o nível de adesão que está a ter [na campanha], porque durante muito tempo, a convicção era que a Renamo era Dhlakama, que Dhlakama era mais importante que o partido", considerou Sérgio Chichava.

Os setores sociais que seguiam Afonso Dhlakama e que agora vão aos comícios de Ossufo Momade tem essa opção como manifestação de desencantamento em relação aos 44 anos de governação da Frelimo.

"Muita gente não conhece Ossufo Momade, estão a vê-lo agora, não estão lá pelo Ossufo, mas porque estão contra a Frelimo, é mais um desencantamento em relação ao regime do dia", referiu Sérgio Chichava.

Guilherme Mbilana, especialista em Direito Eleitoral, assinalou que as camadas sociais que sempre votaram em Afonso Dhlakama e na Renamo poderão manter o seu sentido de voto, mesmo com a mudança na liderança do partido

"Não vamos ignorar a figura, a influência, o caráter carismático do falecido presidente Afonso Dhlakama, no entanto, eu tenho sempre aquele ponto de vista de que a Renamo tem uma base social, o que é forte é a base social da Renamo", frisou Guilherme Mbilana.

Mbilana alertou, contudo, para os danos que a "insurgência dentro da Renamo" pode causar na imagem do partido junto do seu eleitorado tradicional, numa alusão à contestação que está a ser protagonizada pela autoproclamada Junta Militar da Renamo.

Em 15 de outubro, 12,9 milhões de eleitores moçambicanos vão escolher o Presidente da República, dez assembleias provinciais e respetivos governadores, bem como 250 deputados da Assembleia da República. Esta vai ser a primeira vez que os governadores vão ser eleitos - em vez de nomeados pelo Presidente da República -, velha aspiração da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição.

A medida faz parte do acordo alcançado entre o chefe de Estado, Filipe Nyusi, e o histórico líder da Renamo, Afonso Dhlakama, que morreu em 03 de maio de 2018.

PMA // VM

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