Até agora a desmilitarização, desarmamento e reintegração (DDR) dos homens da RENAMO corre "dentro dos carris", afirmam os envolvidos no processo. Contudo, há um problema que se pode antever desde já, caso o DDR continue a ser bem sucedido: Mariano Nhongo e a sua Junta Militar. O principal partido da oposição não terá armas, mas Nhongo, que lidera uma Junta Militar dissidente do partido, continuará a ter.

O especialista em paz e conflito Calton Cadeado reconhece que "sem dúvidas o Nhongo tem de ser tomado em conta neste processo, porque, enquanto persistir o Nhongo, o DDR será incompleto, essa é uma verdade."

Nessa perspetiva, o dissidente da RENAMO e os seus guerrilheiros são uma "pedra no sapato" tanto para a RENAMO como para o Governo do FRELIMO. A quem cabe a responsabilidade de retirar essa "pedra" do processo crucial para as negocições de paz em Moçambique?

"Acho que é uma boa pergunta que tem de ser respondida em dois momentos: num primeiro momento Nhongo era problema só da RENAMO", começa por responder Cadeado.

"O Presidente assumiu a responsabilidade do problema"

Mas o pesquisador avança que "num segundo momento Nhongo é problema da RENAMO, do Estado e de todos nós. Em que momento o Nhongo deixou de ser problema só da RENAMO? A partir do discurso que o Presidente da República faz, creio que na Beira, quando diz que todos os que desetabilizarem o Estado passariam a ser considerados inimigos e seriam perseguidos pelo Estado. Então, o Presidente assumiu a responsabilidade do problema do Nhongo a partir daquele discurso."

A RENAMO, que desde a criação da Junta Militar vem lavando as suas mãos para esse foco de instabilidade no centro do país, acredita que Nhongo está a ser manietado e atira a "batata quente" para o Estado.

Nhongo é um assunto do Estado, diz a RENAMO

José Manteigas é o porta-voz da RENAMO e diz "porque certamente ele deixou-se manipular".

O porta-voz recorda "que no dia 14 de outubro [de 2019] o Sr. Mariano Nhongo teve o privilégio de, em pleno telejornal da TVM, apelar a um voto contra Ossufo Momade e contra a RENAMO. Nem se quer nós como deputados, nem se quer o presidente da RENAMO e muito menos membros de outros partidos da oposição têm espaço na televisão pública."

"Se a FRELIMO permitiu que o Sr. Nhongo tivesse aquele espaço, então este assunto já não é assunto da RENAMO, mas sim do próprio Estado, porque teve a cobertura do Estado para chegar ao ponto que chegou", entende Manteigas.

A Junta Militar contesta a liderança da RENAMO, Ossufo Momade, por considerar que, entre outras coisas, o mesmo traiu os ideiais do partido e do falecido líder Afonso Dhlakama.

E uma das formas que encontrou para manifestar o seu descontentamento é atacar as viaturas que circulam pela principal estrada do país, matando, destruindo e saqueando. Diante da dificuldade em se alcançar internamente um entendimento com a Junta, o secretário-geral da ONU, António Guterres, enviou o seu emissário para dialogar com o seu líder.

Mirko Manzoni disse na sexta-feira (19.06) que "Nhongo é inflexível e que todas as aproximações com vista a um entendimento fracassaram."

"É preciso ir atrás dessas elites"

O líder dissidente conta com que cartadas para se mostrar tão inflexivel, como disse o emissário do secretário-geral da ONU?

O pesquisador Calton Cadeado responde: "Essa é a dúvida que nós todos temos agora, quem é que está por detrás do Nhongo? O Presidente da República fez um discurso em que disse que há elites domésticas e internacionais que não podem ser toleradas e não podem continuar a desestabilizar o país."

A partir daí, Cadeado entende que "isso já nos dá uma percepção de que o chefe de Estado tem mais informações do que todos nós, alimentado pelos serviços responsáveis por essa área, que lhe podem permitir, de facto, dizer quem são essas pessoas, ou elites, que estão a operar quer no centro, quer no norte (Cabo Delgado)."

"Então, a partir desse momento, falar com Nhongo já não pode ser só falar com Nhongo individualmente, mas é preciso ir atrás dessas elites", remata o pesquisador.

por: Nádia Issufo

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