Para o também politólogo, "o Governo de Moçambique tem procurado, dentro dos constrangimentos de um período pré-eleitoral e das dificuldades da economia do país, controlar a situação".

Mas o cenário "exige, além de contenção militar, um esforço de ação psicológica e psicossocial junto das populações locais, que as separe e isole dos elementos subversivos", defendeu, em declarações à Lusa, dois anos após o primeiro ataque de grupos armados de origem ainda por apurar, em Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado.

"Este é o fator principal: depois de conter a subversão, tem de haver um esforço de conquista das populações", reforçou.

Num cenário que exige este tipo de ações, Jaime Nogueira Pinto considera que os russos podem ser os parceiros adequados para ajudar Moçambique a combater este problema.

"Aqui parece que os russos serão os mais indicados", afirmou.

A Rússia está num tempo de investir política e economicamente em África e o Presidente russo, Vladimir Putin, recebeu recentemente o Presidente moçambicano Filipe Nyusi, em Moscovo, com quem assinou vários acordos, recordou Nogueira Pinto.

Por isso "pode estar a contemplar um apoio à segurança no Norte de Moçambique", avançou.

Por outro lado, também há várias notícias sobre a chegada de homens e material russo a Nacala e Nampula, duas cidades no norte de Moçambique, referiu.

Porém, na opinião do politólogo, "é mais natural que os referidos 'militares' sejam, não militares do Exército regular, mas elementos de alguma das companhias militares privadas que – à semelhança de outros países, como a França, o Reino Unido e os próprios Estados Unidos – operam para proteger interesses políticos e económicos russos em áreas instáveis".

"Segundo algumas fontes, seriam mercenários da companhia Wagner", afirmou Jaime Nogueira Pinto.

Para o também empresário, a situação no Norte de Moçambique, especificamente na faixa costeira de Cabo Delgado, "é complexa".

A crise começou há dois anos, com um ataque em Mocímboa da Praia, e desde aí tem havido um reconhecido estado de instabilidade.

"É um problema que tem raízes tribais, económico-sociais e político-religiosas e que começou, dum modo já clássico, em situações de inspiração ‘jihadista’ em África e no Médio Oriente, com jovens a serem atraídos e doutrinados por linhas de fundamentalismo radical – voltando depois para lançar um discurso de contestação preparatório de ações violentas", afirmou.

E, ao mesmo tempo, "a porosidade de fronteiras a norte favorece a infiltração de marginais, alguns dedicados a diversos tráficos, outros com agenda política, outros com os dois 'chapéus' – o político e o criminal", disse.

"As fontes, por exemplo, do Jamestown Foundation Terrorism Monitor referem que os grupos subversivos estarão ligados à Ansar al-Sunna, que se financia com tráfico de pessoas, drogas e pedras preciosas; o grupo tem elementos moçambicanos, mas também de vários países do Norte – Tanzânia, RDCongo, Somália", apontou.

Seja como for, para o politólogo o que "é evidente" é que, após as eleições gerais em Moçambique, marcadas para o próximo dia 15 de outubro, "o Governo tem de se concentrar na pacificação da região, a fim de tranquilizar os investidores".

Porque, os investidores "sempre receiam os ataques que possam pôr em risco não só as suas instalações materiais [que aqui sendo off-shore, na sua maioria, estariam fora do alcance dos elementos subversivos], mas também, sobretudo o seu pessoal".

Apesar do cenário de instabilidade na região norte de Moçambique, os investimentos, da ordem dos 23 mil milhões de dólares (20,9 mil milhões de euros), para exploração de gás natural a partir de 2024 avançam na região.

Alguns distritos da província de Cabo Delgado são alvo de ataques de grupos armados desde há dois anos. De acordo com números recolhidos pela Lusa, a onda de violência já terá provocado a morte de, pelo menos, cerca de 250 pessoas, entre residentes, supostos agressores e elementos das forças de segurança.

O grupo 'jihadista' Estado Islâmico tem anunciado desde junho estar associado a alguns destes ataques, mas autoridades e analistas ouvidos pela Lusa têm considerado pouco credível que haja um envolvimento genuíno do grupo terrorista nos ataques, que vá além de algum contacto com movimentos no terreno.

Na quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, José Pacheco, anunciou que a Rússia forneceu equipamentos militares a Moçambique para apoiar as forças governamentais no combate a grupos armados em Cabo Delgado.

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