"Não consigo indicar se foi uma ação da responsabilidade do governo moçambicano. Mas sei que, do ponto de vista da segurança, Cabo Delgado, face à importância que o projeto do gás tem para Moçambique, seguramente já deveria ter tido uma ação mais musculada, que se espera seja esta que agora está a ser tomada", afirmou Tiago Couto, numa entrevista à Lusa.

O norte de Moçambique tem sido alvo de ataques de combatentes que dizem seguir o Estado Islâmico, com ações militares em várias localidades e provocando a fuga de muitos moradores.

O empresário frisou que a construtora portuguesa, por estar no terreno, envolvida na construção das infraestruturas para a exploração do gás natural na região, com um valor de empreitada de cerca de 60 milhões de dólares (cerca de 55 milhões de euros), tem o conhecimento que lhe permite perceber que o problema dos ataques é "complexo".

Porém, sublinhou que ainda "há um ano houve um ataque que apanhou muita gente desprevenida", inclusive a Gabriel Couto, que perdeu um dos seus colaboradores nessa ofensiva, e, na ocasião, "houve uma paragem e foram envolvidas, ao mais alto nível, pessoas quer do governo moçambicano, quer das (...) entidades de segurança que apoiam as multinacionais petrolíferas".

Mas “alguma coisa não correu bem, porque passado um ano vemos estes ataques recentes”, referindo-se aos que têm ocorrida na mesma zona de Mocímboa da Praia, Quissanga ou Macomia, especialmente desde fevereiro deste ano.

Contudo, nos últimos tempos, "têm-se visto algumas ações positivas por parte do Governo moçambicano, que juntou outras forças", realçou.

Quanto à origem dessas forças, que alguns analistas apontam como empresas de segurança russas preferiu não adiantar pormenores.

"Ouvi já várias versões da sua proveniência. Mas parece-me claro que há um conjunto de equipas a trabalhar em paralelo com o governo de Moçambique, e tem-se visto no terreno um recuar [dos ataques]. Esperemos que definitivo, para eliminar estes insurgentes de Cabo Delgado, que em boa verdade estão a pôr em causa seguramente este enorme e importante projeto”, para o país, considerou.

Mesmo assim, Tiago Couto disse que "é com grande preocupação" que a construtora portuguesa olha para aquele problema.

Quando se deu o ataque terrorista de há um ano, que levou à suspensão por dois meses da empreitada, foram mobilizadas "uma centena de tropas, devidamente equipadas" para a zona, recordou.

Assim, "no decurso do segundo semestre do ano passado desenvolvemos variadíssimos trabalhos que levaram à inauguração da primeira fase do aeroporto, que ainda estamos a terminar". "Não houve, portanto, registos de incidentes de segurança. Mas, infelizmente, no primeiro trimestre deste ano, em fevereiro e em março, voltaram a reaparecer os problemas de segurança", relatou.

Sobre a origem e ligações dos grupos armados que têm levado a cabo ações terroristas na zona, Tiago Couto admite que existem sinais de conexões internacionais, como “a questão do terrorismo do Daesh”.

“A verdade é que os vídeos que nós temos assistido recentemente dão de facto a nota que poderá ser uma célula terrorista que está a penetrar, o que é um facto extremamente grave”, considerou.

Contudo, acrescentou: "confesso que a informação chega depois de um conjunto de filtros e nós pouco mais conhecemos do que aquilo que é público, o que vemos nos jornais e nas redes sociais".

O gestor da Gabriel Couto referiu que a empresa se tem centrado muito na execução dos trabalhos. Até porque "numa determinada altura tivemos uma pressão do nosso cliente para rapidamente concluirmos o aeroporto, que concluímos e abrimos em janeiro deste ano, precisamente para podermos aterrar diretamente com os aviões na zona da obra, evitando, assim, transportes terrestres”.

No dia 14 de maio, o ministro do Interior de Moçambique, Amade Miquidade, anunciou que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) do país tinham abatido nas últimas 48 horas, um total de 50 membros dos grupos que têm protagonizado os ataques armados em Cabo Delgado (norte).

Cabo Delgado tem sido alvo ataques de grupos armados classificados como uma ameaça terrorista desde outubro de 2017, que já provocaram a morte de, pelo menos, 550 pessoas. No final de março, as vilas de Mocímboa da Praia e Quissanga foram invadidas por um grupo, que destruiu várias infraestruturas e içou a sua bandeira num quartel das Forças de Defesa e Segurança.

Na ocasião, surgiu, pela primeira vez, num vídeo distribuído na internet, um alegado militante 'jihadista' a justificar os ataques de grupos armados no norte de Moçambique, com o objetivo de impor uma lei islâmica na região.

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