Num comentário que inseriu esta semana na sua página da rede social Facebook, com o título "Brincadeira tem hora", o comentador político e presidente do conselho de administração do Parque de Ciência e Tecnologia, uma instituição do Estado moçambicano, Julião Cumbane, pede às forças de defesa e segurança "para usarem a sua inteligência e ações enérgicas, mesmo as extralegais, contra as notícias miserabilistas" sobre a violência armada que assola a província de Cabo Delgado.

Em comunicado divulgado hoje, a representação do MISA em Moçambique repudia esse posicionamento, qualificando-o como um atentado contra a liberdade de imprensa e de expressão.

"O Estado deve agir energicamente contra ameaças à liberdade de imprensa e de expressão", refere-se na nota.

As declarações de Julião Cumbane não são aceitáveis num estado de direito democrático, como é Moçambique, prossegue-se no comunicado.

O MISA assinala que três jornalistas e um pesquisador moçambicanos foram ilegalmente detidos no ano passado pelo seu trabalho nas zonas de conflito em Cabo Delgado.

Dois dos jornalistas ficaram detidos por vários meses e acabaram libertados após pressão interna e internacional, aguardando julgamento fora da prisão.

O MISA refere que os comentários de Julião Cumbane acontecem numa altura em que a ação de grupos armados no Norte de Moçambique mostra sinais de agravamento, ao que se juntam ataques armados em alguns troços de estrada no Centro de Moçambique.

A organização defende que o teor das declarações de Cumbane mereça tratamento por parte do Ministério Público, Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) e do Presidente da República.

Por outro lado, conclui-se no comunicado, os jornalistas devem prosseguir o seu trabalho a bem do interesse público.

Os ataques armados na província de Cabo Delgado eclodiram em 2017 protagonizados por residentes, frequentadores de mesquitas "radicalizadas" por estrangeiros, segundo líderes islâmicos locais, que primeiro alertaram para atritos entre fiéis.

Nunca houve uma reivindicação da autoria dos ataques, com exceção para comunicados do grupo ‘jihadista' Estado Islâmico, que desde junho tem vindo a chamar a si alguns deles, com alegadas fotos das ações, mas cuja presença no terreno especialistas e autoridades consideram pouco credível.

Os ataques já provocaram pelo menos 350 mortos e 156.400 pessoas afetadas com perda de bens ou obrigadas a abandonar casa e terras em busca de locais seguros.

A província de Cabo Delgado é aquela onde avançam as obras dos megaprojetos que daqui a quatro anos vão colocar Moçambique no ‘top 10' dos produtores mundiais de gás natural e que onde há algumas empresas e trabalhadores portugueses entre as dezenas de empreiteiros contratados pelos consórcios de petrolíferas.

Na região Centro, várias pessoas perderam a vida desde agosto do ano passado, devido a ataques armados a alvos civis e das forças de defesa e segurança, que as autoridades atribuem à Junta Militar da Renamo, um grupo dissidente da guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição.

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