"Eu mandei os meus três filhos para Chimoio para casa de um irmão, porque não tenho como os ter a salvo, aqui, devido a esses ataques", diz à Lusa Albino Nhampenza, agricultor, morador na aldeia de Pindanganga.

"Prefiro que não estudem, mas que estejam a salvo", sublinha.

Ele próprio trocou a casa na povoação pelas matas, para passar as noites, para escapar a eventuais incursões armadas.

Elsa Francisco, aluna da Escola Completa de Pindanganga, não regressou às aulas depois de perder um colega num ataque a um transporte coletivo em 06 de novembro, numa estrada do interior de Gondola.

"Não há segurança lá e prometeram atacar escolas no início das aulas", diz à Lusa, adiantando que os seus pais estão a ponderar novas formas de sustentar os seus estudos em Chimoio.

Noutro ponto, a única escola de Munhenga, uma aldeia com cerca de 400 habitantes, continua encerrada e com capim alto nas salas às portas do arranque oficial do ano letivo, na terça-feira, 04 de fevereiro.

A escola pertence à Zona de Influência Pedagógica de Pindanganga, uma das áreas mapeada pelas autoridades de educação da província de Manica, como tendo a mais baixa taxa de inscrição de alunos devido a insegurança, provocada por ataques armados.

Logo, há o risco de parte das escolas não reabrirem após as "férias grandes", desde dezembro.

"Não temos alunos para arrancar com as aulas" diz à Lusa Chirinza Taimo, professor, que lembra que muitos alunos deixaram a zona quando os ataques se intensificaram nas vésperas do fim do calendário escolar de 2019.

"Os alunos, junto com os seus encarregados, fugiram dos ataques e não mais regressaram" acrescenta.

Ex-guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) mantêm a zona sob ameaça desde agosto, contestando os termos do acordo de paz entre o principal partido da oposição e o Governo.

Os ataques matam civis nas estradas e aldeias da região.

Estatísticas da Direção Provincial da Educação e Desenvolvimento Humano de Manica, indicam que 2.000 alunos de cinco escolas do ensino primário, nas zonas de ataques não se inscreveram devido à insegurança que afeta as localidades de Muda Serração, Chibuto I, Chibuto II e Pindanganga, no interior do distrito de Gondola.

O distrito inscreveu apenas 3.500 alunos dos 10.500 que se previa serem matriculados na primeira classe para este ano letivo.

Os pais "têm receio" em mandar os filhos para as escolas, com medo de ataques, diz João Tricano, porta-voz do organismo.

"Orientámos [as escolas] no sentido de identificar para onde foram as crianças, onde se refugiaram, e caso haja escolas circunvizinhas podem inscrever-se lá para, quando o ambiente normalizar, eles poderem regressar e voltar para as suas escolas de origem", acrescenta.

Algumas comunidades já estão a regressar às aldeias de origem, tendo em conta que as forças de defesa e segurança já estão lá "para garantir a permanência e a segurança das comunidades", refere João Tricano.

A uma dezena de quilómetros de Munhenga, a escola Primária de Pindanganga vai iniciar o ano letivo com um défice de 78 alunos, ao não ter conseguido inscrever a meta de 130 para 2020.

"Alguns pais ainda estão fora, mas esperamos que a qualquer momento regressem e melhorarem a meta" diz à Lusa Luís Gua, diretor da Escola Primária de Pindanganga, defendendo que a insegurança na zona esteve na origem do fracasso.

A fuga em massa da população no distrito de Gondola começou em outubro, quando foram intensificados ataques a aldeias e a viaturas nas estradas do interior e ao longo de N6, o principal corredor rodoviário que liga o porto da Beira, no Oceano Indico, ao Zimbabué e aos restantes países africanos do interior.

Mas segundo relatos à Lusa em Gondola, que faz fronteira com o distrito de Gorongosa a norte e com Chibabava a sul, várias residências foram incendidas nas últimas semanas, o que complica mais a equação do regresso da população.

Um outro morador de Pindanganga, Josefa Maia, não tem para onde enviar os seus filhos estudar e a única opção que lhe resta é mantê-los em casa e protegê-los das ameaças de ataques no arranque do ano.

"Toda minha família nasceu e está aqui, não tenho outros parentes fora daqui para mandar meus filhos estudarem", conclui.

O Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano de Moçambique conta com 8,4 milhões de alunos no novo ano letivo, um aumento de 4,7% em relação a 2019.

O Ministério contava contratar 12.894 professores, mas dificuldades financeiras só lhe permitiram contratar metade deste número, esperando suprir o défice logo que houver disponibilidade por parte do Ministério da Economia e Finanças - o que tornará possível reduzir o rácio dos atuais 65 alunos por professor para 62.

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