“São indivíduos estrangeiros que teriam vindo para Moçambique e que, fugindo da ofensiva das tropas congolesas e das Nações Unidas, (…) teriam entrado em Moçambique e escolhido Cabo Delgado porque demonstra umas similitudes com o leste da República Democrática do Congo, ou seja, uma zona rica em recursos minerais e uma zona de fraca presença do Estado”, afirmou Chichava.

O investigador moçambicano falava durante uma conferência ‘online’ sobre “A Dimensão Interna e Externa do ‘Al-Shabab’”.

Sérgio Chichava acrescentou que a província “tem sido usada como porta de entrada por vários migrantes ilegais” e que “alguns estudos indicavam que em Cabo Delgado entravam, por dia, cerca de 500 pessoas” oriundas de países próximos de Moçambique – incluindo dos Grandes Lagos.

Para o investigador, Cabo Delgado assumiu-se como “um local propício” para o Al-Shabab se instalar.

“Havia já indivíduos moçambicanos que estavam lá defendendo um Islão radical”, vincou.

Chichava apontou ainda que há relatos de que muitos dos integrantes do grupo islâmico na região são da Tanzânia, “mas não quer dizer que a Tanzânia seja a base do Al-Shabab”.

Eric Morier-Genoud, da Queen’s University Belfast, considerou que o grupo islâmico se trata de uma seita que pretende instituir “uma sociedade regida pela ‘sharia’”.

“A ideia de uma seita é que é um grupo de religiosos que sai da sua cidade e decide distanciar-se do Estado e da sociedade para construir uma sociedade deles – uma contra sociedade com as regras deles –, e os Al-Shabab correspondem exatamente a essa definição sociológica”, afirmou o investigador da universidade britânica.

Para Chichava, apesar de ter uma origem interna, o grupo armado está a desenvolver uma forma de internacionalização.

“Embora tenha uma origem interna, aos poucos estamos a ver uma evolução da internacionalização. Se olharmos para o Al-Shabab, vemos que é composto também por indivíduos estrangeiros”, apontando que há presença de cidadãos de Burundi, Uganda e Tanzânia.

Cabo Delgado, província onde avança o maior investimento privado de África para exploração de gás natural, está sob ataque desde outubro de 2017 por insurgentes, classificados desde o início do ano pelas autoridades moçambicanas e internacionais como uma ameaça terrorista.

Em dois anos e meio de conflito naquela província do Norte de Moçambique, estima-se que já tenham morrido, pelo menos, 600 pessoas e que cerca de 200 mil já tenham sido afetadas, sendo obrigadas a procurar refúgio em lugares mais seguros.

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