Cídia Chissungo, membro da organização Africans Rising e uma das organizadoras da campanha “Cabo Delgado Também É Moçambique”, que mobilizou vários ativistas moçambicanos, adiantou que os bens devem chegar àquela província do norte de Moçambique no início da próxima semana.

A campanha foi lançada na primeira semana de fevereiro, tendo sido recolhidos bens em Maputo, Gaza, Manica, Tete, Zambézia, Niassa, Nampula e na própria província de Cabo Delgado, em Pemba.

“Queríamos que as pessoas saíssem das suas casas e estivessem livres para falar deste assunto, sem medo, porque estariam a apoiar outros irmãos moçambicanos. Recolhemos cerca de seis toneladas [de donativos] que incluem bens alimentares, roupa e calçado”, disse à Lusa a organizadora da campanha, acrescentando que não esperava uma adesão tão grande à iniciativa, o que colocou dificuldades logísticas.

Face à grande quantidade de bens doados, os organizadores pediram apoio ao Instituto Nacional de Gestão das Calamidades para fazer o transporte, o que acabou por não se concretizar devido à passagem destrutiva do ciclone Idai por Moçambique, em meados de março.

“Como já tinha passado um mês decidimos procurar uma alternativa e lançámos uma segunda campanha [‘Quero os donativos em Cabo Delgado’]. Conseguimos arrecadar em 24 horas cerca de 74 mil meticais [cerca de mil euros] para pagar o transporte, que sai hoje e vai passar pelas províncias onde foram recolhidos os donativos”, afirmou Cídia Chissungo.

Os bens deverão chegar entre segunda e terça-feira e vão ser entregues ao administrador da ilha do Ibo, em Cabo Delgado, para serem distribuídos aos deslocados, sendo a entrega acompanhada por ativistas ligados à campanha.

“Essa é a condição que colocámos para voltar a recolher mais donativos. Agora temos de esperar e confirmar que os bens de facto chegam às pessoas e que as famílias foram apoiadas”, continuou a ativista.

Cídia Chissunga admite avançar para uma segunda fase da campanha, na próxima semana, se conseguir assegurar determinadas condições logísticas, como armazéns para guardar os bens e transporte para fazer a entrega.

Questionada sobre o número de deslocados que a violência em Cabo Delgado já provocou, a responsável da campanha de angariação de donativos considerou que é difícil fazer uma estimativa porque “está sempre a mudar”.

As pessoas deslocaram-se para outros países, como a Tanzânia, ou províncias vizinhas, e um e muitas refugiaram-se na ilha do Ibo, onde estarão 2.000 pessoas.

“É por isso que é para este local que está a ser direcionada a ajuda”, adiantou a ativista.

Cídia Chissungo explicou que a ideia surgiu no final do ano passado para chamar a atenção para os problemas que se vivem naquela província: “O nosso Governo considera Cabo Delgado como uma situação controlada, quando de facto não está. Isso significa que algo está a falhar e, por isso, exigimos que se prestasse mais atenção à província de Cabo Delgado porque Cabo Delgado também é Moçambique”.

Salientou também que “as pessoas têm muito medo de falar sobre o assunto”, lembrando que o jornalista Amade Abubacar está detido há três meses por reportar os acontecimentos.

“Há um medo generalizado no nosso país para tocar em determinadas questões ou exigir algum tipo de resposta. As pessoas pensam que estão a confrontar o Governo”, considerou.

A ativista acrescentou que, quando estava a preparar a campanha de solidariedade e contactou alguns canais de televisão, estes não se mostraram interessados porque era “um assunto político e não queriam problemas com o Governo”.

O número de vítimas dos ataques, que nunca foram reivindicados, e os motivos da violência em Cabo Delgado continuam por esclarecer.

O único balanço oficial do Governo, contabilizando 90 mortos, foi feito em outubro de 2018, um ano depois dos ataques a postos policiais em Mocímboa da Praia, mas a onda de violência continuou sucedendo-se incursões contra aldeias remotas todos os meses.

Segundo as contas feitas pela Lusa com base nos ataques noticiados morreram, pelo menos, 170 pessoas desde outubro de 2017.

Cídia Chissungo admite que os ataques de grupos armados não identificados tenham provocado mais de 200 mortos.

“O Governo queria mostrar que [os ataques] não existiam e tudo fizeram para esconder. Até outubro do ano passado nem sequer havia números. Mas todos os dias há ataques e ninguém atualiza os números”, adianta, explicando que alguns órgãos de comunicação social como a Carta de Moçambique referem que os insurgentes já fizeram mais de 200 vítimas, números que não foram desmentidos pelo Governo.

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