A vila de Mocímboa da Praia foi palco de um ataque por um grupo de insurgentes na madrugada de segunda-feira que culminou com o içamento da bandeira do grupo num quartel das forças de defesa e segurança.

À Lusa, Fernando Jorge Cardoso considerou que este movimento “representa a fragilidade da resposta do Governo moçambicano à insurgência”.

“Pela primeira vez, talvez porque os vídeos começaram a ser posicionados nas redes sociais, houve uma conferência de imprensa a justificar o que se tinha passado, mas o que é facto é que a competência do Governo central a lidar com esta situação deixa muito a desejar”, disse, por telefone, o coordenador de Estudos Estratégicos e do Desenvolvimento do Instituto Marquês de Valle Flôr e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE/IUL.

Fernando Jorge Cardoso admitiu que “é difícil travar” o movimento insurgente no norte do país, mas apelou ao Presidente, Filipe Nyusi, para que se desloque para Cabo Delgado durante alguns meses.

“[O Presidente] Deve agarrar nos seus principais colaboradores, transferir-se dois ou três meses para Cabo Delgado – aliás, é a província dele –, e, partir de lá, comandar as operações”, afirmou, sublinhando que Nyusi “foi ministro da Defesa”.

O analista defendeu que o executivo moçambicano "tem de atuar de uma maneira como já devia ter atuado há dois anos ou três".

Para Fernando Jorge Cardoso, é importante que haja uma “ação a curto prazo do lado do Governo e do lado do Presidente da República” uma vez que, devido à pandemia de covid-19, causada pelo novo coronavírus, será difícil a entrada de “forças armadas de outros países em Moçambique nos próximos tempos”.

“Pedir ajuda a membros da SADC [Comunidade de Desenvolvimento da África Austral] neste momento não vai funcionar por causa da pandemia do coronavírus”, disse o académico.

O investigador assinalou ainda que desvalorizar a situação no norte do país e continuar a culpabilizar “malfeitores” é uma manobra arriscada, uma vez que a região apresenta ativos, como os poços de gás natural, que suscitam o interesse de “grandes investidores”.

“Neste momento a situação é complicada. O controlo de uma guerra deste género é complicado, mas o Governo moçambicano está a perder a guerra do ponto de vista psicológico, do ponto de vista da credibilidade que tem junto, inclusivamente, (…) de grandes investidores relativamente às reservas de gás”, afirmou.

Em causa está, para Fernando Jorge Cardoso, a possibilidade de os investidores decidirem não avançarem com os investimentos previstos para a exploração de gás natural no país, o que representaria a perda de “uma oportunidade absolutamente histórica”.

“Nós sabemos que independentemente de os combustíveis fósseis terem, vamos dizer assim, uma data de morte anunciada, esta não vai ser no ano que vem ou nos próximos 10 ou 20 anos. E o gás vai ser o grande substituto do petróleo. Isto é absolutamente crucial do ponto de vista da sobrevivência do próprio país”, concluiu.

Na madrugada de segunda-feira, segundo a polícia e relatos de habitantes ouvidos pela Lusa, insurgentes armados ocuparam as ruas da vila, incendiaram edifícios públicos e atacaram um quartel das forças de defesa e segurança, onde içaram a sua bandeira, confirmando relatos da população já feitos à Lusa.

Durante todo o dia houve confrontos e quando a população voltou a sair, hoje de manhã, encontrou corpos pelas ruas aparentemente já controladas pelas forças de defesa e segurança, sendo que ainda não foi divulgado um número de vítimas dos incidentes.

Mocímboa da Praia é a vila onde em outubro de 2017 foi feito o primeiro ataque nesta onda de violência que nasceu em comunidades muçulmanas radicalizadas e cujos grupos incluem residentes que até hoje nunca fizeram reivindicações ou apresentaram um líder - salvo comunicados do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, mas cuja presença no terreno especialistas e autoridades consideram pouco credível.

A província de Cabo Delgado tem sido alvo de ataques de grupos armados, que organizações internacionais classificaram como uma ameaça terrorista e que em dois anos e meio já fez, pelo menos, 350 mortos, além de 156.400 afetados, devido à perda de bens ou obrigados a abandonar casa e terras em busca de locais seguros.

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