“O Rogério Manjate é um polivalente que é uma coisa que incomoda muito os outros pensadores”, referiu, na abertura do encontro, António Cabrita, professor universitário, jornalista e pensador. Depois, para complementar o seu raciocínio, citou Camilo José Cela, grande intelectual espanhol e prémio Nobel da Literatura: “Este país [Espanha] possui uma pequenez tão grande que não consegue admitir duas ideias diferentes sobre a mesma pessoa.”

Cabrita falava na livraria “Minerva Central”, no encontro que teve lugar na última sexta-feira, dia 18, para debater a “Vida e Obra” de Rogério Manjate – actor de teatro, escritor, cineasta e docente – no âmbito da 75ª Feira do Livro realizada por aquela livraria e editora.

Em seguida, Cabrita passou em revista o multifacetismo de Manjate, lembrando que “Baka Khossa chamou-lhe o nosso Almada Negreiros. Ele dirigiu um jornal; realizou dois filmes, o que deixou as velhas corujas do cinema moçambicano um pouco incomodadas mas como foi premiado no festival de Durban, lá tiveram que aceitar; na prosa escreveu uns contos urbanos muito vivos; a sua poesia, apesar de desconhecida, é arrojada. Por isso, não restam dúvidas que o Rogério tem talento”, concluiu Cabrita.

Rogério Manjate tomou a palavra e, depois de agradecer os elogios e a presença de todos, falou da sua constante insatisfação diante dos seus trabalhos. “Em tudo o que faço ando sempre para a frente e para trás. Se nos livros é fácil, pode-se sempre rescrevê-los, já no cinema não se pode fazer nada, o que está feito está feito. Talvez seja porque todos os dias acordo com uma visão nova sobre as coisas.”

Manjate tem dificuldade em situar no tempo o que veio primeiro, se a escrita se o teatro. “O que junta tudo isto é o prazer de contar histórias. Não importa que o suporte seja escrito, oral ou audiovisual.”

No final levantou uma ponta do véu: “Os próximos livros serão contos já conhecidos mas bastante revistos. Os que estavam escritos em 2002 tinham muitas florzinhas, mas isto tem que ver com o que fui lendo desde então.”        

Recorde-se que Rogério Manjate é também docente na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Estudou Agronomia na mesma universidade e publicou em 2001 o seu primeiro livro, "Amor Silvestre", a que se seguiram "Casa em Flor", poemas para crianças, "Choveria Areia" (2005) e "Mbila + Dinka" (2007). Como cineasta, dirigiu e produziu, antes de "I love you", "My Husband`s Denial", um filme sobre a negação da SIDA. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e colabora em diversos jornais e revistas.

Cristóvão Araújo